sexta-feira, 8 de junho de 2012

14 - Encontro



Com apenas uma moeda na mão em frente a uma máquina de doces e o dinheiro não dá pra comprar a bendita barra de cereal, ele não devia ter gasto uma grana naquela revista em quadrinhos, ele não devia ter comprado o botton pra irmã, ele não devia ter comprado o cachorro quente logo de manhã, afinal ele não devia ter comprado a passagem de trem pra ter ido ao centro da cidade, um local de tentação e consumismo desenfreado para um cara ligado em cultura pop e memorabilia. E a fome apertou bem naquele momento, como comprar algo que custa o dobro do que possui. Eis que surge ao lado dele uma moça loira, cabelos lisos, olhos verdes, um metro e sessenta, trajando um conjunto esportivo com uma moeda de mesmo valor entre os dedos e observando a mesma barra de cereal, só que pelo visto parecia que seu dinheiro havia sido gasto com muitos discos de vinil que trazia numa sacola plástica. Foi como transmissão de pensamento, os dois olharam para as moedas e depositaram as duas na máquina, retirando a barra e dividindo-a entre eles. Não parecia, mas ali nasceu uma amizade que daria frutos poéticos e afinados.
Seu nome era Isaac e não era judeu e o dela Francine e não era francesa, mas ele tinha traços que lembravam o povo turco, era narigudo e os dela eram perfeitos em sua totalidade, nada naqueles dois denotariam que formariam um casal, que por sinal nunca formaram, ele tinha uma paixão mal resolvida com uma amiga de trabalho e ela era bem resolvida com uma amiga do trabalho, então esqueçam se tratar de uma história comum de amor entre um homem e uma mulher, o amor existe, mas não da maneira que imaginam, eles cultivaram algo mais sublime, mais edificante, mais criativo, algo que faria com que os dois fossem admirados por gente que nem sabiam que existiam, mesmo a paixão de Isaac teria uma leve promessa de concretização e a relação de Francine teria um vislumbre de traição. Aquelas moedas tinham história e a divisão da barra de cereal confirmou um evento transcendental. Ele havia encontrado a sua no chão do trem e para testar sua sorte fez uma pergunta, como sempre se a amiga namoraria com ele, e a jogou para o alto se desse cara era sim, e ao pegar e coloca-la sobre as costas da outra mão ele viu que tinha dado cara, um sorriso nasceu no canto de seus lábios. Ela havia encontrado a sua em meio a uns badulaques que tinha comprado numa feira de antiguidades e guardou no bolso do agasalho sem cerimônias místicas. Ou talvez tenha sido a compra que ele tinha feito das revistas do Batman ou o vinil do Joy Division que ela achou no sebo, quem irá dizer qual foi realmente o ponto de convergência para a existência de apenas duas moedas naquele momento. Por sorte ambos haviam comprado as passagens de retorno. Ela morava na zona sul e ele mais ao sul ainda, não estranharam fazerem o trajeto de volta juntos. Durante esse tempo conversaram amenidades, ele sobre quadrinhos, livros e filmes e ela sobre seus discos, televisão e seu trabalho, fato que acabou gerando um brinde para ele. Como estava para ficar desempregado e sobreviveria do seguro desemprego, ou melhor, consumiria o seguro com seu vicio em cultura pop dos anos oitenta. Ela lhe indicou uma vaga na empresa onde trabalhava.
A tal empresa em si era uma grande construtora e a função dela era localizar e adquirir imóveis com grande potencial de retorno após a execução de obras públicas. O ambiente era descontraído, todos se conheciam e se ajudavam e não era segredo para ninguém o relacionamento que Francine mantinha com Valeska, uma morena alta, com curvas insinuantes e um para de pernas que enlouquecia qualquer um, o único senão era seu rosto um pouco masculinizado que lhe dava um ara de transsexulidade, fora isso era um primor da espécie. Isaac em seu primeiro dia ficou um pouco passado ao ver a amiga em um beijo lascivo com a morena, mas como já sabia das preferências de Francine, o que achou um desperdício principalmente se ele tivesse alguma chance com a loirinha, logo se acostumou com a ideia, além do mais a antiga amiga de trabalho não saia de sua cabeça, bem como de sua caixa de mensagens do celular, tá era ele quem mandava e depois rezava pra moça responder.
Não demorou muito e Isaac já estava sendo promovido a Office boy interno e com um aumento substancial em seus ganhos, tanto que ela já pôde comprar um celular de dois chips de boa marca e procedência e aposentar seu velho Xing ling que só não jogou na parede, pois ainda não havia salvado as milhares de mensagens de sua musa, hum milhares dele, porque dela havia umas trinta somente. Essa mudança de tarefas o aproximou  mais de Francine e fez com que ganhasse o apresso de Valeska que o via como um amigo gay já que a loira o tinha como válvula de escape para seus assuntos pseudointelectuais extraídos da cultura de massa imposta pela mídia burguesa com o intuito de banalizar o cotidiano da sociedade em geral, só pra ficar claro, Francine falava sobre cultura televisiva e afins que ficou um pouco mais abrangente com a chegada de TV a cabo. A convivência com o restante dos funcionários também era alegre e em todo aniversário havia uma festinha com bolo e um presente sacan. No primeiro ano ele ganhou um pijama de ursinho, mas as duas amantes lhe deram uma raridade, uma caixa com todos os números do Miracleman, Valeska disse que tinha sido difícil encontrar, mas Isaac sabia que o esforço todo havia sido de Francine, pois só ela sabia o quanto ele procurava esse item e também o quanto ele não tinha para compra-lo quando o encontrasse. E continuando a tradição dos aniversários ridículos, ao fim do turno a maioria se reunia em uma ampla sala de reuniões, cortava o bolo e participava de um concurso inusitado de quem escolheria a música mais brega do  karaokê. Isaac como aniversariante teve o direito, imposto é claro, de escolher a primeira música que foi logo de cara Boemia , no final ele ganhou por pontos, pois foi a pior pontuação conseguida em qualquer festa realizada ali. Valeska tentou pegar pesado escolhento “O meu sangue ferve por você”, mas mesmo com sua voz estridente ela se saiu bem. Agora, na vez de Francine ela escolheu “A vida tem dessas coisas”, quando ela cantou ele teve duas certezas, a primeira ele nem sequer fazia ideia de quem era a música ea segunda a de que Le havia encontrado a voz que tanto esperou, aquela que tornaria seus anseios realidade, aquela que daria vida as suas ideias postas em um papel, mas que por força do destino e por ser um cara extremamente desafinado havia tido corangem de cantar seus versos. A mulher não desfinava por nada. Cada frase, cada pausa, cada olhada que ela dava para Valesca eram perfeitas, bem, as olhadas eram meio estranhas, mas elas se entendiam.
Após a festa Isaac não esperou Francine, nem adiantava também. Por que ela pegou carona com a morena e era melhor evitar as duas quando saiam sorrateiramente para o estacionamento. Ele nunca imaginou que o trem demorasse tanto para chegar ao sul da zona sul, pra ser honesto, ele deu azar naquele dia, porque deu pane na rede elétrica dos trens, mas deixa pra lá. Chegando em casa passou direto pelos pais e pela irmã que já se preparava pra dar uma bronca por causa da cueca esquecida no Box do banheiro, mas sua velocidade de entrada no quarto estava cravada em não me perturbem. Ele jogou os presentes sobre a cama e revirou alguns cadernos em busca de anotações, pegou o violão Tonante que tinha e viu sua afinação, ligou seu celular que tinha a imensa capacidade de gravação de cinco minutos e começou a cantar sua composição. Tudo bem que ele repetiu a operação inúmeras vezes e cada vez mais alto até encontrar o volume certo para o aparelho reproduzir algo audível. E ninguém sabe ao certo explicar porque na manhã seguinte a vizinha maníaca depressiva do lado foi encontrada morta por enforcamento e até hoje não encontraram a relação.
No dia seguinte ele chegou mais cedo, não precisou dar a velha desculpa do trem quebrado, nunca foi desculpa mesmo pra justificar seus atrasos. E foi direto procurar Francine e a encontrou conversando com Valeska, ele se abaixou para beija-la no rosto e ficou nas pontas dos pés para beijar a morena. Isaac puxou a loirinha para um canto sob o olhara cismado da companheira e numa suplica de dar dó, pediu que ela ouvissealgo no celular. Fones nos ouvidos e uma cara de quem ouviu uma unha sendo raspada numa lousa, ela retirou os fones, perguntou se ele tinha a letra, ele a entregou e ela pediu o celular emprestado. Francine entrou no banheiro feminino voltando alguns minutos depois entregando o aparelho para Isaac escutar. Ao ouvir o resultado de uma voz suave com um pequeno eco causado pelas paredes do Box do banheiro e no fundo o som de uma descarga sendo acionada, ele quase teve um ataque, na verdade ele teve um ataque de cólica renal, mas passou logo.
Ela foi sincera, a letra era boa e a música também, mas precisava de ajustes e ele a aprender a tocar direito o violão. A partir dai voltavam todos os dias juntos conversavam sobre música, ele carregava sempre um caderno na bolsa, se encontravam nos cafés, lanchonetes, parques e uma vez foram expulsos da estação de trem por estarem cantando e tocando no vagão, o fato é que ele estava cantando e não ela, o que explica a expulsão. Ela o levou a sua casa os pais dela estranharam, pois ela nunca havia levado um rapaz somente garotas e ele a levou a sua, onde a família determinou que aquela data fosse comemorada todos os anos já que Isaac nunca tinha levado uma garota em casa ou qualquer outra pessoa.
Depois de alguns ensaios e mais nenhuma vizinha morta, eles aproveitaram o aniversário de Valeska e na hora do karaokê els mudaram a tradição e partiram pro velho banquinho e violão. Houve um alivio entre os presentes ao perceberem que Isaac não cantaria naquele dia. Francine pegou o microfone, disse algumas palavras em homenagem a aniversariante e falou que a composição era do Isaac mas que todo o sentimento era dela. Ao terminar a canção a pequena plateia ali reunida aplaudiu emocionada pela voz da loira, os cercaram, os abraçaram, cumprimentaram e disseram que nunca esperaram nada tão bonito saindo de um cara feio, narigudo, quase careca e que só sabe entregar a papelada quando necessário, caso não mudem a cor do envelope.
Após aquele dia todos os aniversários tinham uma apresentação da dupla. Francine cada dia mais afinada e Isaac, bem, Isaac ainda precisava aprender a tocar violão, mas suas letras estavam melhores. Após várias apresentações, Valeska convoca a dupla para propor algo mais ambicioso, ser a atração musical no aniversário do seu Godofredo o dono da empresa, um senhor simples e gentil, que não media esforços para deixar o clima da empresa agradável. Todo o ano a comemoração era considerada um feriado, tanto que os clientes e fornecedores nem sequer ousavam ligar ou marcar algo nessa data. Todos os funcionários compareciam sem exceção e sem problemas de locomoção, pois o transporte para aqueles não dispunham era garantido tanto na ida como na volta. A festa era sempre em um restaurante grande e de renome e com a presença de uma banda, eles aceitaram na hora, e Valeska ficou contente, assim poderia economizar uma grana com a contratação da banda, não que ela não fosse pagar os dois, mas eles nunca iam saber que ela tava desembolsando apenas um quarto do valor disponível, a mulher era mão de vaca, dizem as más línguas e as boas também, que se derramarem um pouco de sal de fruta na mão dela e a jogarem numa piscina, ela sai e ao abrir a mão tem um sonrisal em pastilha e com embalagem, mas voltemos a nossa dupla. Passaram duas semanas ensaiando, reviram todas as músicas que já haviam apresentado, algumas versões de artistas conhecidas e terminaram com umas  vinte músicas e mais umas cinco para um possível bis.
Festa estranha com gente esquisita, nada como ir para um aniversário ouvindo Legião Urbana em um Fusca 78 branco pérola, essa era mais uma conquista de Isaac, seu primeiro meio próprio de transporte, alguns amigos um tempo depois perguntariam, quando ele venderia o Fusca e compraria um carro, mas ele estava contente com a aquisição e a irmã até já havia batizado o carrinho, deu o nome de Herbie, mas a proibiu de colocar um adesivo com o número 53 na lataria. E seu contentamento não era só por isso. Finalmente Valkiria, esquecemos de mencionar que a amiga do seu ex trabalho tinha esse nome, aceitou seu convite para velo em sua primeira apresentação, ele consegui com Valeska dois convites, um para ela e outro par Jóca, também seu amigo do ex trabalho, ele levaria a amiga e depois Isaac a convidaria pra sair e comer sushi, ele tinha aprendido a apreciar a culinária oriental, só não aprendido a usar os rashis, mas graças a genialidade de um algum desafortunado, descobriram que colocar elásticos nas pontas ajudava. Chegando ao restaurante o manobrista já o encarou feio, não por ele ou pelo Fusca, mas pelo violão tonante todo desbotado e quase não acreditou que Isaac fazia parte da atração musical da noite, após alguns acertos e a intervenção prestativa de Ulisses o gerente de vendas, nosso amigo consegue entrar, menos sorte teve Herbie que foi estacionado numa rua lateral sem muita iluminação e com risco de alagamento, sorte que não choveu naquele dia. Isaac estava elegante, terno preto, camisa branca, sapato de amarrar preto e cinto preto, se colocasse uma gravata passaria por segurança do local na boa.
Já dentro e no palco, Isaac se impressiona com o tamanho do local, nem a churrascaria do bairro era tão grande, o palco era quase central, pois havia um mezanino atrás para alguns convidados especiais e a mesa reservada para seu Godofredo estava ali. Microfone posicionado, tonante afinado, só faltava Francine e eis que a bela loirinha sobe ao palco, Isaac quase cai do banco ao ver sua amiga em um vestido preto, tomara que caia, com as costas nuas e uma fenda de rachar o coração, ele nunca tinha percebido quão lindas eram aquelas coxas, Valeska também havia notado o vestido e em seu intimo se vangloriava. Após alguns minutos de estupefação, a dupla se ajeitou e depois de um pequeno discurso da morena em homenagem ao chefe, eles tocaram a primeira música, por sinala primeira composição que apresentaram naquele primeiro aniversário, francine estava fabulosa, Isaac não errou uma nota, estava tudo perfeito, os convidados ficaram extasiados, seu Godofredo orgulhoso da festa, nada poderia dar errado.
E na terceira música Isaac percebe a entrada de um casal no restaurante e logo são encaminhados para a mesa reservada pelo garçom, eram Valquiria e Jóca , Isaac ficou um pouco apreensivo pois os dois chegaram de braços dados, mas ele sabia da amizade dos dois e logo deixou pra lá. Francine começou a cantar uma versão de “Esse brilho em seu olhar” e quando estava no meio da canção ela sente Isaac arranhar uma nota fácil, ela continuou, mas olhou para ele e percebeu seu olhar fixo em um casal que se beijava numa mesa próxima, eram Valkiria e Jóca. Ele ficou perdido em pensamentos e recordações, seus sentimentos viraram um turbilhão, não havia mais motivo pra nada, estar ali não tinha importância, seu orgulho estava mais que ferido, a imagem que ele tinha da ex amiga se desfez, seu amigo, aquele a quem confiava seus sentimentos sobre ela, havia traído sua confiança, não existia palavra para expressar sua revolta, a mulher que ele enaltecia, que ele idolatrava, que ele endeusava, agora estava nos braços de outro e mesmo sabendo o que Isaac sentia, ela não se reteve em demonstrar o que sentia pelo outro. Isaac ficou paralisado por alguns minutos observando o braço do violão e seus traços, foi quando a dor que queria se converter em lágrimas, tornou-se um dedilhar, era Telegraph Road do Dire Straits, Francine ficou impressionada pela ousadia do amigo, pois durante os ensaios essa música não queria sair, a letra era uma tradução adaptada, mas Issac não tirava nada do violão, ele continuava no básico, porém ele fez Francine cantar a letra com o CD tocando ao fundo, ficou muito bom, mas retiraram da apresentação. Ele estava tomado pelo sentimento de que nada mais valia a pena, nem mesmo o fato de passar vergonha diante de tantos, sua magoa o impelia a tocar notas tristes, mas perfeitas, seus dedos buscavam as cordas certas, seus olhos embaçados pela névoa de tristeza não enxergava seu desempenho, em sua mente a única coisa que existia era a trilha que deveria ser seguida, entrar de cabeça em seu ódio. A música tinha praticamente quatro partes, duas líricas e duas instrumentais, Francine cantou a primeira primorosamente e Isaac tocou a primeira instrumental de modo simples, mas emocionante, até o casal de ex-amigos ficaram impressionados, a loira arrasou novamente na segunda lírica e quando terminou pensou que o amigo daria um pequeno toque para finalizar, pois até aquela parte eram quase nove minutos de música. Mas Isaac fez uma pausa de segundos, levantou a cabeça, encarou Valkiria, fulminou Jóca com o olhar e começou a marcar o ritmo com o bater do pé, Francine não acreditando, mas sabendo do intuito do amigo, o acompanhou estalando os dedos, os convidados os acompanharam nos estalar e Isaac tocou a primeira nota do restante da música. Ele colocou raiva, ódio, rancor, todos os sentimentos naquele tonante, que nunca havia emitido um som tão cristalino e perfeito até aquela altura, ele reviveu cada frase escrita, cada noite mal dormida, cada canção que havia escrito tento como inspiração Valkiria, e sua cadencia aumentava até que no furor ele encerrou a apresentação com uma batida violenta, mas afinada nas cordas de seu velho companheiro. O s convidados aplaudiram de pé, quem conhecia Isaac sabia que ele havia se superado e muito naquela apresentação, mas nenhum sabia tanto quanto Francine o que estava passando no intimo do amigo, ela conhecia a história e sua paixão juvenil, ela não conhecia o objeto dessa paixão, mas o olhar dele a havia indicado. A loira em um ato impulsivo largou o microfone no pedestal, caminhou até Isaac que continuava a admirar os traços do violão, colocou a mão sob seu queixo, levantou seu rosto e lhe deu um beijo puro e terno nos lábios. Além dos aplausos que aquele beijo provocou, duas pessoas levantaram em desespero naquele momento, Valeska por ver a namorada aos beijos com outro e seu Godofredo desesperado atrás de um banheiro por causa de um desarranjo causado pelo prato de camarão. Isaac sorriu para Francine e terminaram de tocar as músicas ensaiadas. Após a festa Valeska arrastou Francine para o estacionamento e depois de muita discussão se acertaram, mas houve consequências, Isaac foi para casa em seu Fusca e nem notou que riscaram a porta do passageiro, o casal de ex amigos não tiveram mais noticias de Isaac e sempre acharam que ele havia compreendido a união dos dois, um engano compreensivo, já que ele nunca demonstrou publicamente o ódio e a vontade de esgana-los.
O fim de semana passou e quando Isaac chegou ao trabalho foi recebido por Valeska, que logo de cara lhe disse que Francine não trabalhava mais ali e que não adiantava procura-la, pois era um acerto que haviam feito para que continuassem juntas, se bem que ela não pretendia ficar com Isaac mesmo. Aquilo o deixou arrasado, seus sonhos haviam se tornado realidade por causa da loira, restava para ele, no entanto a certeza da compreensão e apoio da amiga, mesmo ela sabendo que toda inspiração provinha da ex amiga e que não surgira nem mais uma frase conexa desde a festa de aniversário. Alguns dias depois, ao encontrar outra moeda no trem, ele fez o velho gesto de joga-la, mas a pergunta agora era se Francine voltaria, deu coroa, ela não voltaria, ao passar pela máquina de doces ele imaginou a amiga se aproximando e completando o dinheiro pra dividirem outra barra de cereal, ou quem sabe uma nova parceira apareceria, mas para sua surpresa a barra estava custando apenas uma moeda, vendo um rapaz abastecer a máquina ele lhe perguntou o porquê da queda de preço, a resposta o deixou cismado, na verdade por um erro do antigo abastecedor, naquele dia o preço estava errado para mais. Agora sabemos que a causa daquela associação foi uma burrada de um terceiro que não tinha nada com o assunto. Isaac agradeceu, comprou a barra com a moeda e foi embora com a certeza de que agora era ele e somente ele e mais ninguém pra dividir seus anseios. Naquele momento morreu Isaac o artista, o compositor, morreu Isaac filho de Esaú primo de Malaquias, neto de Abrão, ele que vinha de uma família que utilizava nomes bíblicos agora se via solitário contra o mundo, seu sonho passou e foi perdido, sua devoção foi quebrada, seus princípios testados, mas sua alma fortalecida ou tão torcida que ficou anestesiado perante os acontecimentos, ele transfigurou seu rosto em uma máscara de maturidade e abnegação que só sua mente foi capaz de criar, seus dias se tornaram sombrios e alguns arremedos de frases eram de pura perversidade, nunca mais Isaac sorriu com honestidade o palhaço morreu numa noite sem testemunhas e sem ser velado.
 Ah, só pra constar, seu fusca foi roubado na porta de casa num dia de verão.