sábado, 16 de outubro de 2010

11 - DORMENTE

Não estava ausente, nem estava presente, estava dormente, contente, descontente, carente, esperando um ente, com dor de dente.
Às vezes idéias vem outras vão, mas no fundo sempre estão, em algum recanto da mente, ou será que a cabeça mente.
Bem a verdade é que a preguiça bateu, o corpo falhou e os olhos fecharam e mão não escreveu nada decente.
Peço desculpas pela simplicidade, pela falta de tato, pelo desgosto causado, pela incompetência somente.
Mas prometo regressar, mas de onde e para onde, provavelmente em uma onda de contos contentes.
Abraços aos que não me viram e saudades dos presentes.

sábado, 1 de maio de 2010

10 - CONFISSÕES

Sempre quis saber como seria passar um tempo longe de casa incomunicável. Descobri isso no ultimo mês. Passei as férias em uma colônia isolada no interior. Foi um programa barato e agradável. Conheci algumas pessoas que também gostam de um pouco de solidão. Mas chegar em casa em plena Segunda –feira, debaixo de um aguaceiro, não era meu ideal de boas vindas. Entrei em encharcado e após me recompor, fui verificar os recados que a civilização deixara em minha secretaria eletrônica. Tirando os da família e os dos cobradores de sempre, só o recado do Arnaldo me chamou a atenção. "Cleiton , a Alice foi embora". Aquilo me abalou, pois conhecia os dois desde o tempo da faculdade, e sem pestanejar liguei para ele. Enquanto ouvia o telefone chamar, rememorei o que era comentário corrente entre os amigos mais íntimos. "Ela logo vai larga-lo". Só não sabíamos quando seria isso , alguns apostaram em um ano, outros mais otimistas em três; mas tudo havia durado, até o momento, oito anos e meio. E eu precisava realmente saber como acontecera.
No quarto toque ele atendeu, sua voz estava um pouco embargada, e pediu para que eu fosse até a sua casa. Após desligar chamei um taxi e me embrenhei no meio do caos criado pela chuva e dentro do trânsito intransitável desta bendita cidade. Levei algumas horas para chegar ao seu apartamento. Quando subi ele abriu a porta e o que vi foi realmente espantoso, aquilo não era um homem, ele estava irreconhecível era apenas o rascunho de um frangalho, a única reação que teve ao me ver foi a de me puxar e me abraçar, ficamos assim por alguns minutos sob o batente da porta. Acho que se alguém tivesse passado pelo corredor pensaria que era o reencontro de dois amantes que há muito não se viam. finalmente entramos e perguntei.
"A quanto tempo ela foi embora?"
"Faz uns doze dias, mas parece que são anos- seu rosto ficava cada vez mais transfigurado pela dor. - só que eu te chamei aqui por outro motivo, você era tão amigo meu quanto dela, por isso acho que merece partilhar dessa confissão."
Ele me estendeu um envelope verde. Fiquei meio embaraçado. Fomos sempre unidos, eu, ele e a Alice, porém, nenhum dos dois me confiara algo de sua particularidade. Abri o envelope depois dele insistir muito e encontrei algumas folhas manuscritas naquela letra arredondada de mulher, que logo reconheci como dela. Olhei novamente para ele pedindo permissão para começar a leitura.
"Recebi dois dias depois que ela foi embora." Essa foi a deixa para que eu começasse a leitura.

"Naldo querido"

Se você está lendo isso é porque simplesmente eu fui embora. Sei que deve estar magoado, triste e até com raiva, mas nós dois sabíamos que um dia isso iria ocorrer. Não poderia durar tanto, estávamos lutando contra algo que cedo ou tarde havia de nos separar. Pois esse dia chegou e eu não poderia deixar de lhe contar o que passou pela minha cabeça esses anos todos que estive ao seu lado, assim como confissões a serrem feitas. Logo de inicio confesso que esta carta foi escrita dezenas de vezes e é a mesma quantidade de vezes que nosso fim parecia eminente. Espantado, pois não fique, porque essa é a menor das confissões, mas para não adiantar muito , vamos voltar ao nosso inicio e relembrar como e onde nasceu nosso fim.
Foi no segundo ano da faculdade que te conheci, eu cursava fisioterapia e você história, nos trombamos ao acaso na biblioteca do campus. Eu procurava um livro para matar o tempo e como não encontrei peguei outro e fui me sentar na mesa de estudo, chegando lá notei que o livro que procurava estava com um rapaz, me aproximei dele e perguntei se ele tinha pego o livro fazia tempo, o que me respondeu foi que fazia pouco, pois havia procurado um outro livro e como não achara pegou aquele ao acaso, quando ele me falou o nome do livro eu notei que era o que tinha em minhas mãos, mostrei a ele que logo propôs uma troca e nos apresentamos.
Lembra Naldo, foi assim que nos conhecemos, uma pequena troca fez com que tropeçássemos um no outro e depois daquele dia sempre te encontrava na mesma mesa e travamos nossa amizade. na época eu namorava um carinha que conheci logo nos primeiros dias do curso, mas estava passando por algumas dificuldades nessa relação e você tentava amenizar a situação aconselhando a ambos, porém não houve solução amigável e sai daquele relacionamento muito machucada. Mas você esteve ali para me consolar e mostrou o quanto de amizade desprendida existia entre nós.
Bem, a partir dali começamos a andar mais juntos, íamos ao cinema, festinhas das fraternidades, exposições e qualquer coisa que um de nós conhecíamos e quiséssemos mostrar para o outro. Era inevitável que desse convívio não surgisse algo mais. Me lembro como se fosse hoje, a iniciativa de se declarar partiu de você, mas a ação foi minha, tudo bem que te enrolei por uma semana só para dar um certo charme, mas foi legal, estávamos unidos por coisas que não eram palpáveis aos outros. Muitos diziam que éramos iguais demais para ficarmos juntos e eu temia que isso fosse verdade, só que pelo visto você temia mais ainda, porque mesmo depois de algum tempo o seu semblante as vezes deixava escapar sua insegurança.
No inicio eu estava feliz e radiante com a idéia de estarmos juntos, fazíamos o que queríamos, nos entregávamos por inteiro um para o outro. tudo o que queria encontrava com você , mas sempre me batia aquela frase. "nada que é bom dura para sempre". Você me confessava com extrema sinceridade o que sentia por mim e eu sabia, que por receio, eu não conseguia passar essa certeza para você.
Acho que ficou pior quando a bomba foi armada. Você deve se lembrar que eu estava tratando uma pequena infecção que não curava por nada, mas fui levando até que não deu mais e o médico pediu exames mais detalhados. Naldo no dia você estava comigo em casa quando eu disse que iria ver o resultado dos exames antes do médico, você riu e disse que eu não entenderia nada, mas mesmo assim abri os envelopes. Logo de cara notei que algo ia mal, os padrões estavam estranhamente alterados e quando passei por um deles soltei um grito estridente, me joguei para longe de você e me agachei em um canto do quarto e comecei a soluçar e a chorar convulsivamente. Você, sem entender, pegou o exame e começou a olha-lo e vi quando seus olhos pararam na altura do teste onde li em seu semblante o que lera segundos antes:

HIV: positivo.

Depois de alguns instantes nosso conto de fadas explodiu, começamos a colocar para fora todos os sentimentos corruptos existentes, passamos a desconfiar um do outro, fizemos cenas de ciúmes, nos acusamos de prováveis infidelidades e nos ofendemos mutuamente. Cheguei a dizer que você havia acabado com minha vida, aquilo foi a gota d'água, pois logo de cara você me olhou com ar sarcástico e disse que talvez eu tivesse acabado com a sua. Você saiu de casa decidido a tirar isso a limpo, marcou uma consulta com um médico, explicou a ele o ocorrido, fez um exame e decidiu que abriríamos juntos, e certamente independente do resultado nossa vida já tinha virado um inferno.
Foi uma semana longa, evitávamos nos ver, por que com certeza não haveria paz entre nós, e cada dia que passava eu te odiava mais. Acho que isso acontecia contigo também, era ai que a profecia do inicio tomava mais força: "A igualdade deles ainda irá separa-los". O que eu sentia sabia com toda certeza que era análogo aos seus sentimentos.
Porém, naquela Terça-feira, quando você iria levar o exame para que visse, o meu ódio por você havia se extinto, a raiva, os sentimentos nocivos tinham desaparecido. eu simplesmente estava me odiando me sentido o pior da raça humana. Você chegou com o cenho alterado me encarando com ódio e dúvida, pois deve ter notado minha transformação. No instante que tentou abrir a boca para dizer provavelmente: "Tá aqui a porcaria do exame." Eu peguei seu braço com carinho e fiz com que se sentasse e prometesse me ouvir. Comecei lhe falando que certas escolhas que fazemos na vida são acertadas e caminhamos para próxima a fim de continuarmos vivendo e outras se mostram errôneas e precisamos supera-las para conseguirmos evoluir, porém existem aquelas que nos perseguem até mesmo quando estão enterradas. Você me olhou com aquela cara de ponto de interrogação e depois de muito enrolar lhe contei que aquele namorado que tive antes, havia morrido em decorrência de uma infecção pulmonar. Seu semblante mudou naquele instante. E ele só não conseguia se curar pois era portador de HIV a muito tempo, isso quer dizer que na minha época ele já estava infectado.
A reação que você teve foi estranha, o envelope em suas mãos se tornou o centro do seu universo, e eu disse que você estava certo, independente do resultado, nossa vida realmente viraria um inferno, só que seria eu o demônio nesta historia. Você rasgou o envelope com calma, abriu o exame e estancou por um minuto, aquele tempo relativamente curto pareceu uma eternidade e você logo estendeu o papel para mim. O medo me dominava, eu receava pega-lo pois estava apavorada com o que veria, mas como por intervenção divina, pude perceber o que estava escrito.

HIV: negativo.

Fiquei eufórica, alegre e feliz, mas ao mesmo tempo notei que meu mundo acabara diante do seu rosto inquisidor, você queimou qualquer bom sentimento em sua alma, naquele instante o silêncio se tornou insuportável e finalmente falei que você deveria seguir sua vida, pois a minha já tinha sido destruída por minha imprudente inconsequência, pedi que você saísse e deixasse a chave de meu apartamento na portaria. Você passou pela porta e logo depois o zelador interfonou me avisando que a chave havia sido depositada lá. Me recolhi no quarto e chorei, não pelo que acontecia comigo, mas pelo que acabava de perder, perdi o amigo, o companheiro, o piadista que me arrancava gargalhadas e acima de tudo a pessoa que procurava. Fiquei assim por algumas horas, depois me levantei e fui até a sacada observar o mar de luzes que pontilhavam a cidade, recordando quando você me abraçava por trás e ficava admirando este cenário. Ah! como você adorava aquilo, nisso começou a chover e senti os pingos caírem sobre mim, como se quisessem limpar meu espirito. Foi quando ouvi a porta e ao me virar você estava já dentro da sala todo encharcado, se aproximou e disse. "Eu te disse uma vez que havia procurado por você durante uma vida toda, e não deixarei escapar agora que te encontrei, eu quero passar o resto da vida contigo, nem que seja seis meses ou sessenta anos". você me abraçou e me beijou.
Agora aqui vai uma confissão. Instantes antes de você chegar, eu estava disposta a acabar com tudo. E que melhor cenário do que uma noite chuvosa, você não sabe, mas salvou a minha vida desgraçada pela primeira vez. Depois desse dia você se mudou definitivamente para meu apartamento e começou a cuidar de mim. Vivíamos como se fossemos casados, apesar de sempre dizer que tínhamos ojeriza a essa entidade. Você me obrigava a seguir o tratamento e as dietas a risca, me incentivou a continuar a viver e a conviver com o mundo normalmente. Fez com que concluísse a faculdade, você se formou e logo depois batalhou trabalho após trabalho até conseguir um que satisfizesse nossas necessidades. Comprou uma casa melhor para nós e sempre me satisfez, até mesmo na cama, tomando todos os cuidados, sempre dizia do que adiantava tentar me fazer feliz se não fosse em todos os sentidos.
Isso me causava uma certa angustia, por que você era obrigado a fazer exames periodicamente, e a cada resultado negativo eu me alegrava e aventava ainda mais a idéia de partir e te deixar viver sem ter um fardo para se preocupar, porém, sempre adiava essa decisão, principalmente quando você me surpreendia com uma declaração inusitada de seu amor, que insistia em dizer que ainda era pouco para demonstrar o que realmente sentia. Eu sei que retribui a suas demonstrações do meu jeito e sei também que isso nunca lhe deu certeza dos meus sentimentos, mas mesmo me abrindo contigo, a mania que sempre tive de me proteger, impedia de encontrar uma maneira sincera de lhe mostrar os sentimento que tinha por ti.
Mas ainda assim, não queria que você perdesse sua vida por uma condenada, você nunca disse ou insinuou, mas eu sabia que as vezes me condenava em seu intimo pelo meu passado, passado esse que fez vivermos encarcerados em cuidados e prevenções, você deve ter me perdoado varias vezes, mas existem aqueles momentos onde o espirito, por mais puro e justo que seja, fraqueja e deixa a raiva nos consumir, eu percebia isso quando você saia de manhã de cara amarrada e voltava a tarde trazendo um mimo pra mim, como que pedindo desculpas por ter tido tais pensamentos.
E como isso aqui é um maneira de confessar meus pecados, aqui vai outra, sei que será doloroso de saber, mas você precisa. O que você fez e faz por mim é maravilhoso e sublime, mas se situação fosse inversa eu não teria a força que tem para fazer o mesmo. Nesse momento o ódio deve estar te consumindo, mas se te conheço bem, logo depois deve vir seu eterno perdão e isso é demais para mim. E agora eu decidi partir enquanto tenho seu amor, seu carinho e sua dedicação, para que isso nunca se torne pena ou dó, pois seria insuportável ter-te ao meu lado por tais sentimentos.
Te amo, mesmo nunca tendo demonstrado a contento, e quero que você viva o resto de sua vida por você e não por mim.
Adeus.
Da tua eterna Alice, que encontrou, com você, o seu mundo de maravilhas."
Ao terminar de ler a carta me voltei para o Arnaldo e perguntei:
" Quando foi?"
"Ela juntou algumas coisas e foi para casa da Ivone, só que no caminho ela pegou uma chuva forte, adquiriu uma gripe, que logo virou uma pneumonia e não aguentou mais que uma semana."
Ele falava aquilo entre soluços e espasmos e terminou:
"Eu a enterrei em um cemitério aqui próximo.
Para resumir a história. Eu peguei o coitado e o enviei para aquela colônia isolada para tentar se recuperar, e alguns dias depois fui visitar o túmulo da Alice, depositei alguma tulipas sob a lapide onde se lia:
"Alice, sonho de um homem personificado em mulher."
E junto deixei o último exame do Arnaldo que peguei no laboratório:
HIV: positivo.

sábado, 19 de dezembro de 2009

9 - A FESTA


Existem aquelas vezes em que a torcida é tanta que o impossível se realiza, mas esta não era uma delas. O Agenor conseguiu chegar ás dezenove horas em ponto, ô pontualidade infeliz, estacionou seu fusca 73 em frente a minha casa e como de costume, ralou o pneu traseiro na guia, e vendo aquela demonstração de perícia automobilística, me veio na cabeça, “Graças a Deus que não faço serviço externo com ele”. No momento em que ele saiu do carro cumprimentei-o da maneira mais gentil que conhecia, já mandei-lhe a “puta que pariu”, o mesmo me devolveu a gentileza em igual tom cortês. Entramos no carro e depois de uns cinco minutos tentando fechar a bendita da porta, partimos rumo ao calvário.
Agora pode-se imaginar que estávamos indo para a ”gandaia” numa sexta-feira a noite, ledo engano, fomos convidados, ou melhor intimados a comparecer a uma festa social em um clube requintado da cidade; até ai nada demais. Porém, a festa era da empresa onde trabalhávamos. Veja se não existe coisa mais chata que isto, quando é um evento informal, churrasco, futebol, cerveja e churrasco novamente, pode-se suportar, mas em traje de gala é de lascar. Sinceramente, penso que os grandões fazem este tipo de coisa para demonstrar o quanto somos proletariados e que não temos a minima chance de atingirmos o nível deles. No caminho , o meu companheiro foi indagando se estava bem vestido e eu respondia a todo questionamento com um sim semi-cerrado entre os dentes; como se um sujeito com um metro e sessenta e cento e dez quilos, que mais parecia um monstro saído de um seriado japonês, pudesse estar bem dentro de um smoking. Minha paciência já ia pras cucuias quando finalmente chegamos ao local, entregamos o carro ao manobrista que com certeza se matou para guiar a jabiraca até o estacionamento, isso se não encostou no ferro-velho mais próximo xingando até o papa pelo transtorno. Ao entrarmos no saguão demos logo de cara com uma loira toda de vermelho, ela era uma dessas modelos que fazem esses bicos para tirarem alguma grana extra no fim do mês, tinha aquela beleza agressiva que nos é imposta pela mídia burguesa e de brinde trazia um sorriso que mais parecia estar tatuado em seu rosto. Sem muita embromação lhe demos nossos convites que logo nos indicou o salão principal, juro que pra mim ela dizia com seus olhos verdes “bem vindos ao inferno”. Ao chegarmos as portas do purgatório, tive a impressão de que rico adorava gastar para ostentar, mas gosta de gastar um pouco mais só para nos humilhar. O lugar estava simplesmente cheio do bom e do melhor, até meu companheiro, que assim que conseguiu tirar os olhos de cima da loira, ficou estupefato com tamanha pujança. Neste momento uma questão me assolou, onde diabos iriamos ficar, visto que os convites só nos reservava a entrada e nem sequer trazia um mapa das mesas; porém uma vez na boca do leão, qual não foi nossa sorte ao perceber que já haviam solucionado este pequeno inconveniente. Ao olharmos para os convidados já assentados notamos que existia uma tênue divisão de escalão. A diretoria estava reunida num canto a direita, seguindo-se logo por gerentes, encarregados, lideres e por fim , terminando num aglomerado mais numeroso à esquerda onde deveríamos nos juntar, ou seja, a boa e velha plebe. A turma toda estava lá, alguns com as respectivas patroas, outros já tinham em quem se escorar, excetuando-se eu, Agenor, Cleber e o Cláudio, foi meio engraçado quando o Cleber levantou o pescoço fazendo uma panorâmica em busca de carne nova para o abate, mas logo notou que ia ser meio difícil fisgar alguém, especialmente pelo fato da mulherada interessante estar acomodada no setor capitalista. Ai levanta-se a seguinte questão: Onde estava o mulherio solteiro do nosso nível? Resposta: Tentando fazer o mesmo que nós.
A demonstração de altruísmo dos senhores feudais rolava numa boa, já tendo servido a entrada e partindo para o prato principal, o Cláudio solta a expressão mais simpática de seu vocabulário “Vai tomar no...” interrompida quando ele viu o olhar de desaprovação da senhora ao lado, é que ele realmente não sabia o que fazer com mais de um garfo e faca, e garanto que muito menos eu e deixei os comentários de etiqueta com o resto da turma. Já ia pelas vinte duas quando decidimos juntar os solteirões para assaltar o bar, nova decepção, os caras não serviam cerveja, logo, tivemos que nos contentar com uísque, gim-tônica e outros destilados que só vimos nas prateleiras dos hipermercados. Conversamos um pouco do que normalmente falávamos no trabalho, percebemos que aquilo era mesmo um circo e fomos nos escorar na amurada que ficava um pouco acima da ala burguesa, nos postamos no local e notamos que os distintos cavalheiros nos observavam com um certo desdém, talvez se indagando se estávamos planejando alguma revolução cubana, o que não passou de mera especulação. Avistávamos do local a pista principal, observávamos a tudo e a todos com uma bela visão da banda contratada, que tocava umas músicas que eu só ouvia em formatura . Como que por sincronismo paramos o olhar em um mesmo ponto do outro lado do salão. Lá encontrava-se uma mulher de estatura média, corpo esguio, trajando um longo vestido preto com um grande decote nas costas, cabelos castanhos escuros meio que preso meio que solto o que deixava seu pescoço um pouco longo, mas não ao ponto de chama-la de girafa, tinha o rosto firme mas debaixo daquele semblante duro e carregado algo me era familiar, impressão que ficou ainda pior quando o Agenor proferiu um nome -”Neide”- O olhei com a cara mais assustada que se pode ter em um momento de horror e gaguejei uma pergunta:
Que-quem você disse que era?” O coitado vendo que eu demonstrava um interesse além do normal, foi logo me alertando:
“Esquece mano, a mina ali é in.”
“In???”
“É in, inatingível, intocável, inexpugnável e principalmente incalculavelmente distante de gente como nós.”
“Mas oque você sabe dela?”
Insisti.
Bem, o que eu sei é que ela é responsável pela área social da empresa, trata direto com presidente e que foi ela que organizou toda essa esbórnia
Mas não podia ser, havia algo nela que me lembrava alguém do passado, o mesmo nome, o mesmo porte, porém o rosto carregado e marcado me deixava a dúvida que devia ser sanada, indaguei novamente agora sobre o estado civil da moça, respondido sutilmente pelo meu colega:
Você tá louco mesmo né ô idiota, mas já que você quer saber, a fulana ali é descompromissada, alguns figurões tentaram grampea-la sem sucesso e só não foi demitida porque ela é muito boa no que faz. E antes que você me pergunte como sei tanto, tá vendo aquela baixinha gordinha sem nariz ali no meio da ala Vip, é a Margarida, ela trabalha de recepcionista no andar da diretoria, além disso é minha prima, foi ela que nos arranjou este emprego.
Não sei oque me motivava, sai de perto da turma e fui em direção aquela mulher, alguém disse ao longe que eu ia me dar mal ou coisa que o valha. Mas aquela maldita dúvida estava me corroendo , tinha de sacia-la, tinha de ser ela, ou não, poxa haviam passado-se quinze anos e mesmo que fosse, será que se lembrava de mim, e se não. Bem, a decisão estava tomada, qualquer coisa era só dizer que era engano e torcer para nunca mais cruzar com ela por aí. Passei por um garçom, peguei duas taças de champanhe, pelo menos notei que ela não segurava nada, esperei ela ficar a sós e de costas para onde me encontrava, assim pude me aproximar dela e dizer oque tinha bolado, bolado é força de expressão, saiu sem ao menos pensar.
Espero que quinze anos não a tenham feito esquecer de um velho amigo?”
Ela começou a se virar, tudo dentro de mim tremia, aquela virada durava uns dez minutos, dentro da minha cabeça é claro, mas foi ela fixar os olhos em mim e fazer uma cara de interrogação que pensei, “diabo, lascou, vou ter de arranjar uma bela desculpa”.Entretanto, o devaneio foi logo interrompido, aquela mulher abriu um sorriso tão lindo que não havia mais dúvida, era a Neide , caramba, era a minha Neide, Ela cobriu a distância entre nós em milésimos de segundo, a noção de tempo fica estranha nestas horas, e me abraçou com tanta força que tive de me firmar para não derrubar as taças.
Eu não acredito que é você?” disse ela se afastando um pouco.
Pois acredite, sou eu mesmo.” Entreguei uma taça a ela.
Nossa, a última vez que te vi foi...”
Foi quando fui pagar uma conta no banco onde você trabalhava.” Interrompi, lembrando do tempo que ela era apenas uma auxiliar de contas a pagar. Bem a conversa se desenrolou como se não houvesse mais ninguém ali. Exceto na hora em que olhei para minha galera e notei uma miscelânea de expressões de espanto, mas foi só por um breve momento, pois eu não sentia aquela alegria e aquele prazer de compartilhar algo tão bom desde a época em que convivíamos juntos, claro que naquele tempo eu nutria uma paixão secreta por ela, mas isso no momento não vinha ao caso, um ruído diferente me fez despertar, a banda começou a tocar uma música velha conhecida nossa e ao som dos primeiros acordes tomei coragem e falei:
Neide, que tal você realizar um antigo sonho meu?”
“Qual?”
“Eu queria ter a honra e o prazer de dançar com a menina mais linda do colégio.”
Não sei se ela ficou vermelha ou eu estava vendo tudo em tom de rosa, mas quando lhe ofereci o meu braço para conduzi-la à pista, ela simplesmente sorriu e aceitou. O garçom apareceu no momento exato de recolher nossas taças. Descemos os degraus que nos separavam dos outros casais que já giravam ao som hipnótico, nisso todos os meus companheiros já haviam desabados sentados e abismados com a cena. Nos colocamos de frente uma para o outro, passei minhas mãos pela sua cintura, ela enlaçou meu pescoço com seus braços longos e dançamos até o final da música, mas quando começou a segunda canção, senti que algo havia mudado. Ela voltara a fechar o semblante e com a voz um pouco embargada praticamente sussurrou:
Sabe, foi ótimo te encontrar, falar dos velhos tempos, mas existem coisas que ficaram no passado, na nossa juventude e que não nos pertencem mais...”
Eu sabia exatamente oque era, pois estava sentindo o mesmo, então cochichei em seu ouvido:
“Talvez na adolescência tivéssemos a impressão de que qualquer sonho era realizável, mas hoje eu percebo que nem o tempo, - a afastei com os braços estendidos – e nem a distancia – a puxei num giro- me impediram de realizar este sonho, aqui e agora.”
Não houve reação e nem sequer um motivo, ela simplesmente me beijou no rosto e disse: “Obrigada” Em seguida me largou no meio da pista e foi embora, era um pouco antes da meia-noite, pensei que ela havia partido, caso contrário viraria abóbora.
Porém a verdade fez-se nítida uma semana depois. O Agenor ainda ressabiado e abismado, diga-se de passagem, com o episódio, conversou com sua prima e disse que a Neide havia pedido demissão na segunda feira seguinte a festa. Um mês depois eu estava meio enroscado com um servicinho porco que o Cleber havia me deixado, quando chega o boy da firma com uma correspondência. Imaginei logo que era a carta de alforria, mas era algo inesperado, ele me entregou um envelope e dentro continha um postal que na sua foto mostrava uma paisagem urbana e ao fundo a Torre Eiffel. Tomei uma certa coragem e fui até meu chefe.
Hoje estou aqui realizando sonhos, os meus e de outras pessoas, tenho um estúdio de gravação nos fundos da minha pequena livraria onde até o Agenor gravou o primeiro disco do grupo de samba dele, só não sabia que quando ele cantava a voz dele parecia tanto com a da Clara Nunes, mas deixa pra lá. Sob o vidro do balcão está o postal , que de tempos em tempos é retirado para que eu possa rememorar as palavras que me trouxeram até aqui:
“Talvez o passado não mais nos pertença, mas não custa nada olhar para trás e tomar algo de volta. Lembre-se os sonhos são realidades que as realidades alheias impedem de tornassem realidades”
De sua eterna sonhadora NEIDE.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

8 - CONTOS DE GUERRILHA 2

MISTÉRIO NA JORDÂNIA
Uma área de 2 mil metros quadrados, registrou temperaturas de quase 400°C. A história foi descoberta por pastores que observavam um rebanho de ovelhas. “ Os bichos entraram no terreno para pastar, de repente começaram a queimar e desapareceram”. Disse o governador da região. A hipótese até aqui é uma peculiar reação de materiais orgânicos liberados por esgotos improvisados.
Publicado em outubro de 2009

*Relatório de PTPD 2658/2008
– Confronto com milícia
- Analise da ocorrência e possível localização

-Chegamos ao local informado pelas autoridades da Jordânia, onde encontramos um pequeno povoado que, pelos relatos dos habitantes, sempre foi vítimas de ataques de milícias por causa da pequena produção de alimentos e pelos poucos poços d'água da região. Mas estas ocorrências estavam diminuindo nos últimos tempos por causa da presença de um forasteiro que montou uma estrutura de defesa rudimentar mas eficiente. Ao que tudo aparenta, ele pode ser um dos fugitivos PTPD de classificação JDN 235. O fato de termos informações de sua estadia neste local, reafirma a ideia de que, mesmo com seus centros de memórias alterados, os experimentos estão voltando para seus locais de origem, ou algo próximo as suas experiências passadas.
-Tudo indica que o experimento utilizou amplificação e concentração de energia solar, confirmando sua identidade (JDN 235). Buscas foram realizadas, mas não encontramos vestígios de sua passagem por nenhum lugar. A possibilidade de ter se encaminhado para alguma área montanhosa é praticamente nula. Nosso satélite já demarcou a área provável para analise de aumento súbito de calor. Estamos agora nos dirigindo com nossas forças para o Nepal, para investigar incidente na região de Mustang.

* CONTOS DE GUERRILHA * criado por Eder Bovelo e Odair Mercham

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

7 - CONFESSOR

Ele saiu tropego vindo da sacristia , seus pés não respondiam ao seu intento, parecia tomado por tremores e temores, de sua boca escorria uma saliva grossa, o peito arfava buscando um último resquício de ar, em sua mente visões de demônios que só conhecera em citações bíblicas e outros tomos apócrifos. Nada poderia salva-lo do que estava consumindo, sua visita ali fora apenas a última esperança de remissão de seus erros e principalmente do seu pecado maior, cometido naquela mesma tarde, mas sua vida devotada ao caminho correto acabara de ser arrancada a força junto com seu sangue, Mas sua surpresa maior era a identidade de seu punidor, a pessoa de quem ele havia recebido seus segredos, naquele instante revelava seu último e derradeiro relato, acompanhado de toda dor sentida por ele quando sentiu o silvo perene em seu pescoço e depois a dormência doce do sono milenar. Porém para ele não haveria salvação, aquilo era um julgamento, sua visão ficaria turva, sua pela não sentiria o toque, a fragrância que sentia naquele instante era salgada, mas não como a maresia que tanto gostava, sua voz deixou uma monossilaba em um cubículo há alguns metros atrás.
A visão de seu pecado retornara naquele instante, um momento de fúria, um lampejo de ódio, cegueira seguida de ação desmedida e depois a simples sensação de um peso em seus braços, o resultado do acumulo de anos de possessivos, de olhos ciumentos, de desconfiança incutida. Tudo terminava com o objeto de seu desejo e destino de suas caricias pressionado entre suas mãos, com a pele que tanto roçara ternamente descamando em seus dedos. A mão punidora era visível, sua esperança repousava em seu sagrado pupilo. Largou o ato infame em seu leito e fugiu para cruzar as portas redenção. O relato foi breve, a atenção recebida foi uma dádiva, mas a penitência inesperada. Após ser recitado em seu ouvido a ladainha de perdão o que faltaria apenas era o ato punidor, uma mão passou a segurar seu queixo, a outra seu peito, enquanto um rosnado se aproximava e arrancava nacos de sua garganta.
A constatação de que estava morrendo não o surpreendia mais do que a visão animalesca e profana do sacerdote que ajudara a ordenar, talvez seu maior castigo seja estar morrendo sem ao menos imaginar quem poderia ter corrompido seu filho.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

6 - NO MORE DIMENSION ZERO

Em minhas andanças pela metrópole, acabei tropeçando no video de um velho herói de infância, “Johnny Cypher in Dimension Zero”, o disco continha seis episódios fora de ordem, fiquei sabendo depois que a série contava com cento e trinta, mas tudo bem, aquilo era mais que um aperitivo, depois daria um jeito de garimpar os restantes. Com aquela relíquia nas mãos, com certeza ao chegar em casa, voltaria a ter quatro anos de idade, quando colocava a boca do fogão no peito e giraria como um louco imaginando um ciclone ser formar a minha volta, lembraria da vizinha loirinha que personificava a heroína e do meu cachorro Moby que fazia as vezes de marciano. Talvez não fizesse isso hoje, mas fui para casa sonhando com meu filho realizando as minhas peripécias de infância ao assistir aquele clássico, coitado só tinha seis anos mas era esperto o bastante para entender o enredo.
Cheguei e já briguei com a patroa, ela odiava que eu gastasse com essas, como dizia, porcarias, mas como faze-la entender que nós homens somos a soma de nossas memórias e que quando buscamos o futuro, na verdade, estamos tentando realizar os sonhos de infância com um pouco mais de malicia ou na pior das hipóteses conseguindo comprar o que não conseguimos ter quando moleques. Depois de alguns minutos de discussão e alguns trabalhos caseiros para justificar minha presença naquele domicilio, fui para a sala e chamei meu garoto. Ao entrar ele notou o estojo em minhas mãos e foi logo se atirando pensando que era um presente, deixei-o colocar para rodar, como sempre sentávamos no tapete para assistir qualquer coisa, era uma maneira de estarmos mais próximos. Confesso que desde a abertura, até o último crédito do sexto episódio fiquei hipnotizado, nada me desligou, nem me retirou do paraíso idílico e suave dos meus primeiros anos. Levei algum tempo até me lembrar de que não estava sozinho e de tirar a mão que insistia em girar algo sobre o peito, perguntei se ele havia gostado. Ele colocou a mão sob o queixo, me encarou e começou a relatar os defeitos de animação, depois desancou com a qualidade da imagem dizendo que não conseguia identificar as cores e por último, sem dó nem piedade soltou uma pergunta referente ao quarto episódio:
Caso o vilão conseguisse triunfar e destruir o universo, o que ele iria fazer quando não houvesse mais nada para destruir?”.
Levantei, retirei o video, reinstalei o game, entreguei o controle para o rapaz , passei a mão em sua cabeça e me dirigi para o quarto onde pretendia esconder o disco, as recordações ridículas do meu passado e principalmente a boca do fogão da minha mãe que me acompanhava até aquela data.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

5 - CONTOS DE GUERRILHA


Esta nota foi retirada de uma publicação online

INCIDENTE COM EXPLORADORES NO NEPAL

Uma equipe internacional de estudiosos, arqueólogos, alpinistas e exploradores sofreu um incidente próximo a complexos de cavernas situados perto do distrito de Mustang, no Nepal, a mais ou menos 125 quilômetros a noroeste de Katmandu.
Ao visitarem as cavernas, que contêm pinturas, além de textos tibetanos e fragmentos de cerâmica da era pré-cristã, o grupo foi vitima de um ataque no minimo estranho. Eles relataram que enquanto estavam nas cavernas, ouviram fortes explosões e sentiram alguns tremores subsequentes. Alguns membros do grupo tentaram sair para averiguar o que estava acontecendo, mas foram barrados por disparos de luzes que os cegaram momentaneamente. Tudo não durou mais que dez minutos, mas eles levaram mais uma hora para se recuperarem do efeito causado pela luz.
Ao sair o grupo encontrou marcas de arranhões profundos nas pedras, e também algumas rochas derretidas. Umas das cavernas que haviam sido visitadas anteriormente estava com sua entrada lacrada por vários detritos.
Nosso correspondente escutou alguns moradores da região, os mesmos informaram que luzes e tremores são frequentes nas regiões das cavernas, principalmente nos últimos anos.
As autoridades do Nepal negaram qualquer atividade militar na área, mas fontes do governo disseram que pretendem fechar a região para visitação durante o tempo que efetuarem as investigações.
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*CONTOS DE GUERRILHA* - criado por Eder Bovelo e Odair Mercham