sexta-feira, 8 de junho de 2012

14 - Encontro



Com apenas uma moeda na mão em frente a uma máquina de doces e o dinheiro não dá pra comprar a bendita barra de cereal, ele não devia ter gasto uma grana naquela revista em quadrinhos, ele não devia ter comprado o botton pra irmã, ele não devia ter comprado o cachorro quente logo de manhã, afinal ele não devia ter comprado a passagem de trem pra ter ido ao centro da cidade, um local de tentação e consumismo desenfreado para um cara ligado em cultura pop e memorabilia. E a fome apertou bem naquele momento, como comprar algo que custa o dobro do que possui. Eis que surge ao lado dele uma moça loira, cabelos lisos, olhos verdes, um metro e sessenta, trajando um conjunto esportivo com uma moeda de mesmo valor entre os dedos e observando a mesma barra de cereal, só que pelo visto parecia que seu dinheiro havia sido gasto com muitos discos de vinil que trazia numa sacola plástica. Foi como transmissão de pensamento, os dois olharam para as moedas e depositaram as duas na máquina, retirando a barra e dividindo-a entre eles. Não parecia, mas ali nasceu uma amizade que daria frutos poéticos e afinados.
Seu nome era Isaac e não era judeu e o dela Francine e não era francesa, mas ele tinha traços que lembravam o povo turco, era narigudo e os dela eram perfeitos em sua totalidade, nada naqueles dois denotariam que formariam um casal, que por sinal nunca formaram, ele tinha uma paixão mal resolvida com uma amiga de trabalho e ela era bem resolvida com uma amiga do trabalho, então esqueçam se tratar de uma história comum de amor entre um homem e uma mulher, o amor existe, mas não da maneira que imaginam, eles cultivaram algo mais sublime, mais edificante, mais criativo, algo que faria com que os dois fossem admirados por gente que nem sabiam que existiam, mesmo a paixão de Isaac teria uma leve promessa de concretização e a relação de Francine teria um vislumbre de traição. Aquelas moedas tinham história e a divisão da barra de cereal confirmou um evento transcendental. Ele havia encontrado a sua no chão do trem e para testar sua sorte fez uma pergunta, como sempre se a amiga namoraria com ele, e a jogou para o alto se desse cara era sim, e ao pegar e coloca-la sobre as costas da outra mão ele viu que tinha dado cara, um sorriso nasceu no canto de seus lábios. Ela havia encontrado a sua em meio a uns badulaques que tinha comprado numa feira de antiguidades e guardou no bolso do agasalho sem cerimônias místicas. Ou talvez tenha sido a compra que ele tinha feito das revistas do Batman ou o vinil do Joy Division que ela achou no sebo, quem irá dizer qual foi realmente o ponto de convergência para a existência de apenas duas moedas naquele momento. Por sorte ambos haviam comprado as passagens de retorno. Ela morava na zona sul e ele mais ao sul ainda, não estranharam fazerem o trajeto de volta juntos. Durante esse tempo conversaram amenidades, ele sobre quadrinhos, livros e filmes e ela sobre seus discos, televisão e seu trabalho, fato que acabou gerando um brinde para ele. Como estava para ficar desempregado e sobreviveria do seguro desemprego, ou melhor, consumiria o seguro com seu vicio em cultura pop dos anos oitenta. Ela lhe indicou uma vaga na empresa onde trabalhava.
A tal empresa em si era uma grande construtora e a função dela era localizar e adquirir imóveis com grande potencial de retorno após a execução de obras públicas. O ambiente era descontraído, todos se conheciam e se ajudavam e não era segredo para ninguém o relacionamento que Francine mantinha com Valeska, uma morena alta, com curvas insinuantes e um para de pernas que enlouquecia qualquer um, o único senão era seu rosto um pouco masculinizado que lhe dava um ara de transsexulidade, fora isso era um primor da espécie. Isaac em seu primeiro dia ficou um pouco passado ao ver a amiga em um beijo lascivo com a morena, mas como já sabia das preferências de Francine, o que achou um desperdício principalmente se ele tivesse alguma chance com a loirinha, logo se acostumou com a ideia, além do mais a antiga amiga de trabalho não saia de sua cabeça, bem como de sua caixa de mensagens do celular, tá era ele quem mandava e depois rezava pra moça responder.
Não demorou muito e Isaac já estava sendo promovido a Office boy interno e com um aumento substancial em seus ganhos, tanto que ela já pôde comprar um celular de dois chips de boa marca e procedência e aposentar seu velho Xing ling que só não jogou na parede, pois ainda não havia salvado as milhares de mensagens de sua musa, hum milhares dele, porque dela havia umas trinta somente. Essa mudança de tarefas o aproximou  mais de Francine e fez com que ganhasse o apresso de Valeska que o via como um amigo gay já que a loira o tinha como válvula de escape para seus assuntos pseudointelectuais extraídos da cultura de massa imposta pela mídia burguesa com o intuito de banalizar o cotidiano da sociedade em geral, só pra ficar claro, Francine falava sobre cultura televisiva e afins que ficou um pouco mais abrangente com a chegada de TV a cabo. A convivência com o restante dos funcionários também era alegre e em todo aniversário havia uma festinha com bolo e um presente sacan. No primeiro ano ele ganhou um pijama de ursinho, mas as duas amantes lhe deram uma raridade, uma caixa com todos os números do Miracleman, Valeska disse que tinha sido difícil encontrar, mas Isaac sabia que o esforço todo havia sido de Francine, pois só ela sabia o quanto ele procurava esse item e também o quanto ele não tinha para compra-lo quando o encontrasse. E continuando a tradição dos aniversários ridículos, ao fim do turno a maioria se reunia em uma ampla sala de reuniões, cortava o bolo e participava de um concurso inusitado de quem escolheria a música mais brega do  karaokê. Isaac como aniversariante teve o direito, imposto é claro, de escolher a primeira música que foi logo de cara Boemia , no final ele ganhou por pontos, pois foi a pior pontuação conseguida em qualquer festa realizada ali. Valeska tentou pegar pesado escolhento “O meu sangue ferve por você”, mas mesmo com sua voz estridente ela se saiu bem. Agora, na vez de Francine ela escolheu “A vida tem dessas coisas”, quando ela cantou ele teve duas certezas, a primeira ele nem sequer fazia ideia de quem era a música ea segunda a de que Le havia encontrado a voz que tanto esperou, aquela que tornaria seus anseios realidade, aquela que daria vida as suas ideias postas em um papel, mas que por força do destino e por ser um cara extremamente desafinado havia tido corangem de cantar seus versos. A mulher não desfinava por nada. Cada frase, cada pausa, cada olhada que ela dava para Valesca eram perfeitas, bem, as olhadas eram meio estranhas, mas elas se entendiam.
Após a festa Isaac não esperou Francine, nem adiantava também. Por que ela pegou carona com a morena e era melhor evitar as duas quando saiam sorrateiramente para o estacionamento. Ele nunca imaginou que o trem demorasse tanto para chegar ao sul da zona sul, pra ser honesto, ele deu azar naquele dia, porque deu pane na rede elétrica dos trens, mas deixa pra lá. Chegando em casa passou direto pelos pais e pela irmã que já se preparava pra dar uma bronca por causa da cueca esquecida no Box do banheiro, mas sua velocidade de entrada no quarto estava cravada em não me perturbem. Ele jogou os presentes sobre a cama e revirou alguns cadernos em busca de anotações, pegou o violão Tonante que tinha e viu sua afinação, ligou seu celular que tinha a imensa capacidade de gravação de cinco minutos e começou a cantar sua composição. Tudo bem que ele repetiu a operação inúmeras vezes e cada vez mais alto até encontrar o volume certo para o aparelho reproduzir algo audível. E ninguém sabe ao certo explicar porque na manhã seguinte a vizinha maníaca depressiva do lado foi encontrada morta por enforcamento e até hoje não encontraram a relação.
No dia seguinte ele chegou mais cedo, não precisou dar a velha desculpa do trem quebrado, nunca foi desculpa mesmo pra justificar seus atrasos. E foi direto procurar Francine e a encontrou conversando com Valeska, ele se abaixou para beija-la no rosto e ficou nas pontas dos pés para beijar a morena. Isaac puxou a loirinha para um canto sob o olhara cismado da companheira e numa suplica de dar dó, pediu que ela ouvissealgo no celular. Fones nos ouvidos e uma cara de quem ouviu uma unha sendo raspada numa lousa, ela retirou os fones, perguntou se ele tinha a letra, ele a entregou e ela pediu o celular emprestado. Francine entrou no banheiro feminino voltando alguns minutos depois entregando o aparelho para Isaac escutar. Ao ouvir o resultado de uma voz suave com um pequeno eco causado pelas paredes do Box do banheiro e no fundo o som de uma descarga sendo acionada, ele quase teve um ataque, na verdade ele teve um ataque de cólica renal, mas passou logo.
Ela foi sincera, a letra era boa e a música também, mas precisava de ajustes e ele a aprender a tocar direito o violão. A partir dai voltavam todos os dias juntos conversavam sobre música, ele carregava sempre um caderno na bolsa, se encontravam nos cafés, lanchonetes, parques e uma vez foram expulsos da estação de trem por estarem cantando e tocando no vagão, o fato é que ele estava cantando e não ela, o que explica a expulsão. Ela o levou a sua casa os pais dela estranharam, pois ela nunca havia levado um rapaz somente garotas e ele a levou a sua, onde a família determinou que aquela data fosse comemorada todos os anos já que Isaac nunca tinha levado uma garota em casa ou qualquer outra pessoa.
Depois de alguns ensaios e mais nenhuma vizinha morta, eles aproveitaram o aniversário de Valeska e na hora do karaokê els mudaram a tradição e partiram pro velho banquinho e violão. Houve um alivio entre os presentes ao perceberem que Isaac não cantaria naquele dia. Francine pegou o microfone, disse algumas palavras em homenagem a aniversariante e falou que a composição era do Isaac mas que todo o sentimento era dela. Ao terminar a canção a pequena plateia ali reunida aplaudiu emocionada pela voz da loira, os cercaram, os abraçaram, cumprimentaram e disseram que nunca esperaram nada tão bonito saindo de um cara feio, narigudo, quase careca e que só sabe entregar a papelada quando necessário, caso não mudem a cor do envelope.
Após aquele dia todos os aniversários tinham uma apresentação da dupla. Francine cada dia mais afinada e Isaac, bem, Isaac ainda precisava aprender a tocar violão, mas suas letras estavam melhores. Após várias apresentações, Valeska convoca a dupla para propor algo mais ambicioso, ser a atração musical no aniversário do seu Godofredo o dono da empresa, um senhor simples e gentil, que não media esforços para deixar o clima da empresa agradável. Todo o ano a comemoração era considerada um feriado, tanto que os clientes e fornecedores nem sequer ousavam ligar ou marcar algo nessa data. Todos os funcionários compareciam sem exceção e sem problemas de locomoção, pois o transporte para aqueles não dispunham era garantido tanto na ida como na volta. A festa era sempre em um restaurante grande e de renome e com a presença de uma banda, eles aceitaram na hora, e Valeska ficou contente, assim poderia economizar uma grana com a contratação da banda, não que ela não fosse pagar os dois, mas eles nunca iam saber que ela tava desembolsando apenas um quarto do valor disponível, a mulher era mão de vaca, dizem as más línguas e as boas também, que se derramarem um pouco de sal de fruta na mão dela e a jogarem numa piscina, ela sai e ao abrir a mão tem um sonrisal em pastilha e com embalagem, mas voltemos a nossa dupla. Passaram duas semanas ensaiando, reviram todas as músicas que já haviam apresentado, algumas versões de artistas conhecidas e terminaram com umas  vinte músicas e mais umas cinco para um possível bis.
Festa estranha com gente esquisita, nada como ir para um aniversário ouvindo Legião Urbana em um Fusca 78 branco pérola, essa era mais uma conquista de Isaac, seu primeiro meio próprio de transporte, alguns amigos um tempo depois perguntariam, quando ele venderia o Fusca e compraria um carro, mas ele estava contente com a aquisição e a irmã até já havia batizado o carrinho, deu o nome de Herbie, mas a proibiu de colocar um adesivo com o número 53 na lataria. E seu contentamento não era só por isso. Finalmente Valkiria, esquecemos de mencionar que a amiga do seu ex trabalho tinha esse nome, aceitou seu convite para velo em sua primeira apresentação, ele consegui com Valeska dois convites, um para ela e outro par Jóca, também seu amigo do ex trabalho, ele levaria a amiga e depois Isaac a convidaria pra sair e comer sushi, ele tinha aprendido a apreciar a culinária oriental, só não aprendido a usar os rashis, mas graças a genialidade de um algum desafortunado, descobriram que colocar elásticos nas pontas ajudava. Chegando ao restaurante o manobrista já o encarou feio, não por ele ou pelo Fusca, mas pelo violão tonante todo desbotado e quase não acreditou que Isaac fazia parte da atração musical da noite, após alguns acertos e a intervenção prestativa de Ulisses o gerente de vendas, nosso amigo consegue entrar, menos sorte teve Herbie que foi estacionado numa rua lateral sem muita iluminação e com risco de alagamento, sorte que não choveu naquele dia. Isaac estava elegante, terno preto, camisa branca, sapato de amarrar preto e cinto preto, se colocasse uma gravata passaria por segurança do local na boa.
Já dentro e no palco, Isaac se impressiona com o tamanho do local, nem a churrascaria do bairro era tão grande, o palco era quase central, pois havia um mezanino atrás para alguns convidados especiais e a mesa reservada para seu Godofredo estava ali. Microfone posicionado, tonante afinado, só faltava Francine e eis que a bela loirinha sobe ao palco, Isaac quase cai do banco ao ver sua amiga em um vestido preto, tomara que caia, com as costas nuas e uma fenda de rachar o coração, ele nunca tinha percebido quão lindas eram aquelas coxas, Valeska também havia notado o vestido e em seu intimo se vangloriava. Após alguns minutos de estupefação, a dupla se ajeitou e depois de um pequeno discurso da morena em homenagem ao chefe, eles tocaram a primeira música, por sinala primeira composição que apresentaram naquele primeiro aniversário, francine estava fabulosa, Isaac não errou uma nota, estava tudo perfeito, os convidados ficaram extasiados, seu Godofredo orgulhoso da festa, nada poderia dar errado.
E na terceira música Isaac percebe a entrada de um casal no restaurante e logo são encaminhados para a mesa reservada pelo garçom, eram Valquiria e Jóca , Isaac ficou um pouco apreensivo pois os dois chegaram de braços dados, mas ele sabia da amizade dos dois e logo deixou pra lá. Francine começou a cantar uma versão de “Esse brilho em seu olhar” e quando estava no meio da canção ela sente Isaac arranhar uma nota fácil, ela continuou, mas olhou para ele e percebeu seu olhar fixo em um casal que se beijava numa mesa próxima, eram Valkiria e Jóca. Ele ficou perdido em pensamentos e recordações, seus sentimentos viraram um turbilhão, não havia mais motivo pra nada, estar ali não tinha importância, seu orgulho estava mais que ferido, a imagem que ele tinha da ex amiga se desfez, seu amigo, aquele a quem confiava seus sentimentos sobre ela, havia traído sua confiança, não existia palavra para expressar sua revolta, a mulher que ele enaltecia, que ele idolatrava, que ele endeusava, agora estava nos braços de outro e mesmo sabendo o que Isaac sentia, ela não se reteve em demonstrar o que sentia pelo outro. Isaac ficou paralisado por alguns minutos observando o braço do violão e seus traços, foi quando a dor que queria se converter em lágrimas, tornou-se um dedilhar, era Telegraph Road do Dire Straits, Francine ficou impressionada pela ousadia do amigo, pois durante os ensaios essa música não queria sair, a letra era uma tradução adaptada, mas Issac não tirava nada do violão, ele continuava no básico, porém ele fez Francine cantar a letra com o CD tocando ao fundo, ficou muito bom, mas retiraram da apresentação. Ele estava tomado pelo sentimento de que nada mais valia a pena, nem mesmo o fato de passar vergonha diante de tantos, sua magoa o impelia a tocar notas tristes, mas perfeitas, seus dedos buscavam as cordas certas, seus olhos embaçados pela névoa de tristeza não enxergava seu desempenho, em sua mente a única coisa que existia era a trilha que deveria ser seguida, entrar de cabeça em seu ódio. A música tinha praticamente quatro partes, duas líricas e duas instrumentais, Francine cantou a primeira primorosamente e Isaac tocou a primeira instrumental de modo simples, mas emocionante, até o casal de ex-amigos ficaram impressionados, a loira arrasou novamente na segunda lírica e quando terminou pensou que o amigo daria um pequeno toque para finalizar, pois até aquela parte eram quase nove minutos de música. Mas Isaac fez uma pausa de segundos, levantou a cabeça, encarou Valkiria, fulminou Jóca com o olhar e começou a marcar o ritmo com o bater do pé, Francine não acreditando, mas sabendo do intuito do amigo, o acompanhou estalando os dedos, os convidados os acompanharam nos estalar e Isaac tocou a primeira nota do restante da música. Ele colocou raiva, ódio, rancor, todos os sentimentos naquele tonante, que nunca havia emitido um som tão cristalino e perfeito até aquela altura, ele reviveu cada frase escrita, cada noite mal dormida, cada canção que havia escrito tento como inspiração Valkiria, e sua cadencia aumentava até que no furor ele encerrou a apresentação com uma batida violenta, mas afinada nas cordas de seu velho companheiro. O s convidados aplaudiram de pé, quem conhecia Isaac sabia que ele havia se superado e muito naquela apresentação, mas nenhum sabia tanto quanto Francine o que estava passando no intimo do amigo, ela conhecia a história e sua paixão juvenil, ela não conhecia o objeto dessa paixão, mas o olhar dele a havia indicado. A loira em um ato impulsivo largou o microfone no pedestal, caminhou até Isaac que continuava a admirar os traços do violão, colocou a mão sob seu queixo, levantou seu rosto e lhe deu um beijo puro e terno nos lábios. Além dos aplausos que aquele beijo provocou, duas pessoas levantaram em desespero naquele momento, Valeska por ver a namorada aos beijos com outro e seu Godofredo desesperado atrás de um banheiro por causa de um desarranjo causado pelo prato de camarão. Isaac sorriu para Francine e terminaram de tocar as músicas ensaiadas. Após a festa Valeska arrastou Francine para o estacionamento e depois de muita discussão se acertaram, mas houve consequências, Isaac foi para casa em seu Fusca e nem notou que riscaram a porta do passageiro, o casal de ex amigos não tiveram mais noticias de Isaac e sempre acharam que ele havia compreendido a união dos dois, um engano compreensivo, já que ele nunca demonstrou publicamente o ódio e a vontade de esgana-los.
O fim de semana passou e quando Isaac chegou ao trabalho foi recebido por Valeska, que logo de cara lhe disse que Francine não trabalhava mais ali e que não adiantava procura-la, pois era um acerto que haviam feito para que continuassem juntas, se bem que ela não pretendia ficar com Isaac mesmo. Aquilo o deixou arrasado, seus sonhos haviam se tornado realidade por causa da loira, restava para ele, no entanto a certeza da compreensão e apoio da amiga, mesmo ela sabendo que toda inspiração provinha da ex amiga e que não surgira nem mais uma frase conexa desde a festa de aniversário. Alguns dias depois, ao encontrar outra moeda no trem, ele fez o velho gesto de joga-la, mas a pergunta agora era se Francine voltaria, deu coroa, ela não voltaria, ao passar pela máquina de doces ele imaginou a amiga se aproximando e completando o dinheiro pra dividirem outra barra de cereal, ou quem sabe uma nova parceira apareceria, mas para sua surpresa a barra estava custando apenas uma moeda, vendo um rapaz abastecer a máquina ele lhe perguntou o porquê da queda de preço, a resposta o deixou cismado, na verdade por um erro do antigo abastecedor, naquele dia o preço estava errado para mais. Agora sabemos que a causa daquela associação foi uma burrada de um terceiro que não tinha nada com o assunto. Isaac agradeceu, comprou a barra com a moeda e foi embora com a certeza de que agora era ele e somente ele e mais ninguém pra dividir seus anseios. Naquele momento morreu Isaac o artista, o compositor, morreu Isaac filho de Esaú primo de Malaquias, neto de Abrão, ele que vinha de uma família que utilizava nomes bíblicos agora se via solitário contra o mundo, seu sonho passou e foi perdido, sua devoção foi quebrada, seus princípios testados, mas sua alma fortalecida ou tão torcida que ficou anestesiado perante os acontecimentos, ele transfigurou seu rosto em uma máscara de maturidade e abnegação que só sua mente foi capaz de criar, seus dias se tornaram sombrios e alguns arremedos de frases eram de pura perversidade, nunca mais Isaac sorriu com honestidade o palhaço morreu numa noite sem testemunhas e sem ser velado.
 Ah, só pra constar, seu fusca foi roubado na porta de casa num dia de verão.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

13 - A VIDA QUIROMANTICA DE CAROLINA VELAZQUEZ



Durante séculos uma forma de determinar o status de um governante era a presença de um astrólogo junto à realeza. Suas previsões e acertos eram a diferença entre a vida e morte não só entre os membros da corte, mas também da preservação da sua própria integridade física. A necessidade de consulta a um adivinho não foi excluída da vida das pessoas com o advento da razão, no transcorrer do tempo os astrólogos pessoais foram substituídos por algo mais coletivo, o horóscopo publicado diariamente nos jornais. Milhões de pessoas espalhadas pelo globo não saem de suas casas sem antes folhearem as páginas dos matutinos a caça das supostas previsões e conselhos para orientarem seu dia.
Com nossa amiga Carolina não é diferente, desde a infância, influenciada pela avó que lhe presenteou com um almanaque astrológico, ela guia os detalhes de sua vida buscando orientação em qualquer forma de pseudopresságios, horóscopos, i-ching, folhas de chá, e outras formas divinatórias, sendo a quiromancia sua favorita. Todo o sábado a tarde ela visitava uma velha cigana que se radicou em seu bairro para que esta lhe desse uma luz conselheira pra o transcorrer da semana seguinte. Essas consultas duraram muito tempo até que a velha cigana um belo dia transcendeu para um plano superior. Na verdade ela foi assassinada por um ladrão saído recentemente da prisão, o motivo foi um acerto de contas, ele a consultou antes de realizar um grande roubo e a velha previu que tudo sairia bem durante o trabalho, mas o meliante foi preso antes de entrar na agência bancária que pretendia assaltar.
Durante um bom tempo Carolina ficou órfã de um guia, guru, xamã, vidente, profeta, mãe de santo, qualquer individuo que a orientasse diante das desventuras do destino. Até encontrar na prolífera internet sites e mais sites oferecendo orientações nas mais diversas escolas de adivinhação e profecias.  O mais famoso deles era o sandrarosa.com, dizem que o próprio Magal que em sociedade com o Paulo Coelho, mantinha este site. Ele oferecia o grande diferencial de leitura das linhas da mão online, era só scanear a palma e ter em minutos uma analise e previsão do futuro. Mas Carolina desconfiada, não gostava de utilizar sites de grande repercussão, então ela adotou um que selecionava seus usuários o ciganamimi.net. Esse ela conheceu a partir de um pequeno cartão que encontrou dentro da revista semanal que sempre deixavam sobre sua mesa no trabalho.
O dia, a vida e o trabalho de Carolina eram totalmente orientados por esse site, cigana Mimi utilizava uma abordagem muito pessoal, tanto que seus clientes eram selecionados. Não era um site de livre acesso, o pretendente a cliente tinha de preencher um questionário e, se aprovado, recebia uma senha para entrar em um local especifico. Não existia uma cobrança direta pelo serviço, o que havia era uma comprovação mensal de uma doação para uma instituição de caridade indicada pelo site num valor estipulado. Isso dava ao serviço prestado uma áurea de filantropia. Carolina colaborava com uma quantia substancialmente maior por agregar um item ao seu perfil de usuária, a consulta com hora marcada em tempo real. Seus horários eram sempre aos sábados ás quatorze horas, consultas que duravam exatos cinquenta minutos. As perguntas de Carolina sempre envolviam dois assuntos pertinentes, trabalho e vida amorosa. Nessa última ela acabou rompendo um relacionamento de sete anos por interpretar a orientação da cigana Mimi como que se “antecipando” a uma possível traição por parte do namorado. E ela não sentiu remorso algum ao saber que, meses depois, uma colega de trabalho havia começado um namoro com seu ex.
O emprego por sinal se tornou a razão de sua existência, pois havia no horizonte próximo o prêmio de uma promoção e recolocação em uma filial da empresa no oriente e sua competência a colocava em primeiro lugar para ocupar esse cargo. Suas decisões acertadas diante dos desafios profissionais ela julgava serem uma colaboração direta de suas consultas ao site esotérico. O projeto não era nada simples, a empresa havia sido recente mente adquirida por um conglomerado na área de informática que via na prestação de serviços sua tábua de salvação depois de anos produzindo equipamentos para empresas e escritórios. E um desses serviços era o gerenciamento de recursos humanos através de portais de intranet das empresas contratantes, a vantagem estava em estabelecer escritórios regionais para que se adequassem a legislação de cada país e partir deles fornecer recursos básicos para os clientes, livrando-os da contratação de mão de obra especializada para atuar dentro da empresa e com o ganho de escala e a própria economia em funcionários, oferecer um serviço barato e adaptável ao perfil e tamanho da empresa. Mas ao adquirir uma empresa no Japão, o conglomerado se deparou com um problema, ela queria que o serviço que havia criado a partir da aquisição da empresa onde nossa amiga Carolina trabalhava, executasse todo serviço de recursos humanos, porém não havia um escritório instalado ainda naquele país, coube a matriz da empresa com sede por aqui a ingrata tarefa de, sem enviar alguém para o Japão, viabilizar a implantação do sistema.
Como no jargão de um grupamento policial o qual o trabalho foi levado às telas de cinema “missão dada, missão cumprida”, a empresa não podia recuar dessa empreitada e nem sequer levantar a hipótese da necessidade do envio de alguém para o local. Nossa amiga Carolina era a única indicada para a tarefa, sua formação em direito exterior e sua capacidade de estabelecer contatos com empresas e pessoas mesmo em áreas totalmente desvinculadas a colocava como líder nata para implantação do sistema. Na primeira reunião ela já estabeleceu um equipe de apoio e de suporte, como o quadro da empresa havia sido enxugado não havia como escolher muito, foram incorporados ao conselho de guerra de nossa amiga cinco pessoas das cinco áreas predominantes do sistema de gestão em recursos humanos e mais um interprete contratado exclusivamente para a tarefa. Dentro do mais puro profissionalismo e espírito de equipe Dulce foi agregada ao projeto. Cabe uma resalva aqui, Dulce era a atual namorada do ex de nossa amiga e antes da montagem da equipe, Carolina havia consultado o site de cigana Mimi para saber se haveria compatibilidade e progresso com a reunião das pessoas, a resposta veio assim que ela forneceu ao site informações como data, horário e local de nascimento. Não demorou mais que algumas horas para que todos os envolvidos fossem aprovados, com exceção de um pequeno remanejamento. Cigana Mimi orientou nossa amiga para que ela melhorasse o ciclo kármico o projeto colocando  Dulce como segunda em comando do projeto, assim as chances de sucesso seriam ampliadas.
Equipe montada, astral verificado era hora de colocar tudo em andamento, o prazo era muito curto, nada mis que duas semanas pra tudo estar em perfeita ordem no dia que fosse anunciada na sede da empresa no Japão que os novos donos estavam no comando. Os dois primeiros dias foram somente de pesquisa, tanto da estrutura existente da empresa, como da legislação existente, visitas ao consulado viraram uma rotina nas duas semanas que se seguiram. No quarto dia verificou-se a necessidade de agregar mais um componente ao conselho de guerra, por sugestão de Dulce, um funcionário que havia trabalhado no Japão por cinco anos se juntou ao grupo para orienta-los na maneira que os trabalhadores eram tratados nas empresas japonesas, claro que seus antecedentes e o signo ascendente do novato foram verificados por nossa amiga. O trabalho já começou a dar frutos no fim de semana, pois não haveria folga para nenhum dos participantes, até as visitas ao site de cigana Mimi foram reduzidas a uns meros quinze minutos do que sobrou no horário do almoço.
Projeto em andamento, conflitos aparecendo e sendo sanados, visitas, consultas e pesquisas sendo feitas, uma sessão de massagem encomendada para ser feita no local de trabalho pois todos estavam extenuados e mais algumas consultas rápidas para cigana Mimi e num domingo oito horas da noite aqui, pois no Japão já eram oito da manhã de segunda-feira. Todos apreensivos quando do anuncio da transferência de comando da empresa japonesa e todos os trabalhadores teriam seus pagamentos e benefícios geridos por um grupo externo e sem vinculo e que teria um local físico para eventuais reclamações instalado no país apenas alguns meses depois. Anuncio feito sistema implantado e integrado, bastava agora esperar alguns dias para verificar sua eficácia, o que na verdade levou algumas semanas, pois foram necessários alguns ajustes diante da resistência dos funcionários da empresa para recorrer ao sistema diante de alguma necessidade. Mas após esse período tudo já estava em andamento e uma proposta estava já encaminhada para o conselho de guerra que tornou a empreitada possível. Todos seriam promovidos e enfrentariam diante de um novo projeto, a instalação de uma sede em Osaka para oferecer o serviço para o país inteiro.  A comemoração só foi interrompida quando a pessoa que seria a encarregada do projeto e futura gerente da sede agradeceu a todos pelo empenho, fez um pequeno relato de todos os acontecimentos e no final disse que se via obrigada a recusar a promoção e que além disso estava pedindo demissão pois estava analisando uma proposta de um novo e mais ambicioso projeto. Após espantos e protestos a recusa de nossa amiga Carolina continuou firme em sua decisão de sair da empresa.
Após se despedir de todos, refutar novamente as ofertas feitas por seus superiores, Carolina foi para casa, ligou seu computador e releu novamente a interpretação de cigana Mimi para os próximos meses:
“Não haverá prêmio pelo que agora conquistou, mas o verdadeiro horizonte está onde você ainda não conhece, mas irá a ouvir falar em breve,  um convite será feito, mas recusado, pois a glória baterá em sua porta em pouco tempo.”
Para ela não havia dúvidas, tudo seria melhor e mais gratificante, os ganhos futuros e suas crenças a faziam imaginar milhares de coisas boas e promissoras. Ela agora pensava em agradecer Cigana Mimi fazendo uma doação de boa parte de sua indenização para sua instituição de caridade para demonstrar o quanto ela foi importante no sucesso desse projeto. Após  realizar uma transferência eletrônica para a conta da instituição, Carolina foi para cama iniciar sua fase de recuperação física após tanto tempo se emprenhando dia de noite nesse último trabalho, seu sono veio com a certeza de que sempre poderia contar com a orientação honesta de um site que o destino colocou em seu caminho.
Naquela mesma noite, chegando em casa, Dulce vai ao quarto da irmã contar a novidade da promoção conseguida e seu futuro local de residência, como Carolina havia recusado o cargo restou a opção de oferece-lo para a segunda em comando. Para a irmã isso já na era novidade, ela conhecia bem Dulce e sabia que para obter o que desejava ela se esforçaria ao máximo para transpor os obstáculos, mesmo que esses fossem a pessoa de uma mulher muito competente e capaz, mas que tinha a pequena desvantagem de ser supersticiosa, nossa amiga Carolina se encaixava nesse perfil e não foi dificuldade alguma Dulce verificar quais eram as preferências esotéricas da concorrente e sabendo da capacidade da irmã de criar sites, encomendou um para que fosse usado por Carolina em suas novas consultas e para que a mesma se sentisse impelida a procura-lo, ela deixou um cartão feito exclusivamente para a ocasião dentro da revista sobre a mesa de Carolina fazendo parecer que foi obra do destino. O fato de ter de se cadastrar fez com que ela não desconfiasse de que ela era a única usuária de um site criado exclusivamente para manipula-la. Fazendo com que suas consultas a guiassem para que Dulce ganhasse dela os prêmios merecidos, sendo o primeiro o namorado, este por sinal já era alvo dos anseios de Dulce que pediu a irmã para dar uma dica falsa que fez com que Carolina terminasse o namoro e ela pudesse ter caminho livre para a conquista do rapaz, só que agora ele seria colocado novamente para escanteio, pois Dulce não se prenderia a um relacionamento vendo seu futuro garantido em outro país. Mas Dulce não menosprezava totalmente Carolina, ela sabia que sem a capacidade dela de liderança e gerenciamento de multitarefas a execução do trabalho seria algo quase impossível, por isso ao invés de fazê-la tomar decisões equivocadas para prejudica-la, Dulce pediu para que a irmã a orientasse para o sucesso da empreitada, o seu remanejamento dentro do grupo e que no momento do prêmio ela pensasse que existia algo muito melhor fora da empresa, deixando caminho livre para segunda opção que era Dulce.
Quanto às doações, a instituição realmente existia e era mantida pela mãe das duas manipuladoras. E nossa amiga Carolina se viu perdida novamente quando, misteriosamente, semanas depois de seu pedido de demissão ao acessar o ciganamimi.net  esse não era mais encontrado. Não restou alternativa a nossa amiga, já que ela se viu novamente órfã de sua nova cigana, a não ser utilizar sua capacidade intelectual, prestar um concurso público e se enfurnar em uma repartição onde o trabalho beirava a rotina mais perfeita possível para não necessitar imaginar um futuro sem orientação dos astros.