Durante séculos uma forma de determinar o status de um governante era a presença de um astrólogo junto à realeza. Suas previsões e acertos eram a diferença entre a vida e morte não só entre os membros da corte, mas também da preservação da sua própria integridade física. A necessidade de consulta a um adivinho não foi excluída da vida das pessoas com o advento da razão, no transcorrer do tempo os astrólogos pessoais foram substituídos por algo mais coletivo, o horóscopo publicado diariamente nos jornais. Milhões de pessoas espalhadas pelo globo não saem de suas casas sem antes folhearem as páginas dos matutinos a caça das supostas previsões e conselhos para orientarem seu dia.
Com nossa amiga Carolina não é diferente, desde a infância, influenciada pela avó que lhe presenteou com um almanaque astrológico, ela guia os detalhes de sua vida buscando orientação em qualquer forma de pseudopresságios, horóscopos, i-ching, folhas de chá, e outras formas divinatórias, sendo a quiromancia sua favorita. Todo o sábado a tarde ela visitava uma velha cigana que se radicou em seu bairro para que esta lhe desse uma luz conselheira pra o transcorrer da semana seguinte. Essas consultas duraram muito tempo até que a velha cigana um belo dia transcendeu para um plano superior. Na verdade ela foi assassinada por um ladrão saído recentemente da prisão, o motivo foi um acerto de contas, ele a consultou antes de realizar um grande roubo e a velha previu que tudo sairia bem durante o trabalho, mas o meliante foi preso antes de entrar na agência bancária que pretendia assaltar.
Durante um bom tempo Carolina ficou órfã de um guia, guru, xamã, vidente, profeta, mãe de santo, qualquer individuo que a orientasse diante das desventuras do destino. Até encontrar na prolífera internet sites e mais sites oferecendo orientações nas mais diversas escolas de adivinhação e profecias. O mais famoso deles era o sandrarosa.com, dizem que o próprio Magal que em sociedade com o Paulo Coelho, mantinha este site. Ele oferecia o grande diferencial de leitura das linhas da mão online, era só scanear a palma e ter em minutos uma analise e previsão do futuro. Mas Carolina desconfiada, não gostava de utilizar sites de grande repercussão, então ela adotou um que selecionava seus usuários o ciganamimi.net. Esse ela conheceu a partir de um pequeno cartão que encontrou dentro da revista semanal que sempre deixavam sobre sua mesa no trabalho.
O dia, a vida e o trabalho de Carolina eram totalmente orientados por esse site, cigana Mimi utilizava uma abordagem muito pessoal, tanto que seus clientes eram selecionados. Não era um site de livre acesso, o pretendente a cliente tinha de preencher um questionário e, se aprovado, recebia uma senha para entrar em um local especifico. Não existia uma cobrança direta pelo serviço, o que havia era uma comprovação mensal de uma doação para uma instituição de caridade indicada pelo site num valor estipulado. Isso dava ao serviço prestado uma áurea de filantropia. Carolina colaborava com uma quantia substancialmente maior por agregar um item ao seu perfil de usuária, a consulta com hora marcada em tempo real. Seus horários eram sempre aos sábados ás quatorze horas, consultas que duravam exatos cinquenta minutos. As perguntas de Carolina sempre envolviam dois assuntos pertinentes, trabalho e vida amorosa. Nessa última ela acabou rompendo um relacionamento de sete anos por interpretar a orientação da cigana Mimi como que se “antecipando” a uma possível traição por parte do namorado. E ela não sentiu remorso algum ao saber que, meses depois, uma colega de trabalho havia começado um namoro com seu ex.
O emprego por sinal se tornou a razão de sua existência, pois havia no horizonte próximo o prêmio de uma promoção e recolocação em uma filial da empresa no oriente e sua competência a colocava em primeiro lugar para ocupar esse cargo. Suas decisões acertadas diante dos desafios profissionais ela julgava serem uma colaboração direta de suas consultas ao site esotérico. O projeto não era nada simples, a empresa havia sido recente mente adquirida por um conglomerado na área de informática que via na prestação de serviços sua tábua de salvação depois de anos produzindo equipamentos para empresas e escritórios. E um desses serviços era o gerenciamento de recursos humanos através de portais de intranet das empresas contratantes, a vantagem estava em estabelecer escritórios regionais para que se adequassem a legislação de cada país e partir deles fornecer recursos básicos para os clientes, livrando-os da contratação de mão de obra especializada para atuar dentro da empresa e com o ganho de escala e a própria economia em funcionários, oferecer um serviço barato e adaptável ao perfil e tamanho da empresa. Mas ao adquirir uma empresa no Japão, o conglomerado se deparou com um problema, ela queria que o serviço que havia criado a partir da aquisição da empresa onde nossa amiga Carolina trabalhava, executasse todo serviço de recursos humanos, porém não havia um escritório instalado ainda naquele país, coube a matriz da empresa com sede por aqui a ingrata tarefa de, sem enviar alguém para o Japão, viabilizar a implantação do sistema.
Como no jargão de um grupamento policial o qual o trabalho foi levado às telas de cinema “missão dada, missão cumprida”, a empresa não podia recuar dessa empreitada e nem sequer levantar a hipótese da necessidade do envio de alguém para o local. Nossa amiga Carolina era a única indicada para a tarefa, sua formação em direito exterior e sua capacidade de estabelecer contatos com empresas e pessoas mesmo em áreas totalmente desvinculadas a colocava como líder nata para implantação do sistema. Na primeira reunião ela já estabeleceu um equipe de apoio e de suporte, como o quadro da empresa havia sido enxugado não havia como escolher muito, foram incorporados ao conselho de guerra de nossa amiga cinco pessoas das cinco áreas predominantes do sistema de gestão em recursos humanos e mais um interprete contratado exclusivamente para a tarefa. Dentro do mais puro profissionalismo e espírito de equipe Dulce foi agregada ao projeto. Cabe uma resalva aqui, Dulce era a atual namorada do ex de nossa amiga e antes da montagem da equipe, Carolina havia consultado o site de cigana Mimi para saber se haveria compatibilidade e progresso com a reunião das pessoas, a resposta veio assim que ela forneceu ao site informações como data, horário e local de nascimento. Não demorou mais que algumas horas para que todos os envolvidos fossem aprovados, com exceção de um pequeno remanejamento. Cigana Mimi orientou nossa amiga para que ela melhorasse o ciclo kármico o projeto colocando Dulce como segunda em comando do projeto, assim as chances de sucesso seriam ampliadas.
Equipe montada, astral verificado era hora de colocar tudo em andamento, o prazo era muito curto, nada mis que duas semanas pra tudo estar em perfeita ordem no dia que fosse anunciada na sede da empresa no Japão que os novos donos estavam no comando. Os dois primeiros dias foram somente de pesquisa, tanto da estrutura existente da empresa, como da legislação existente, visitas ao consulado viraram uma rotina nas duas semanas que se seguiram. No quarto dia verificou-se a necessidade de agregar mais um componente ao conselho de guerra, por sugestão de Dulce, um funcionário que havia trabalhado no Japão por cinco anos se juntou ao grupo para orienta-los na maneira que os trabalhadores eram tratados nas empresas japonesas, claro que seus antecedentes e o signo ascendente do novato foram verificados por nossa amiga. O trabalho já começou a dar frutos no fim de semana, pois não haveria folga para nenhum dos participantes, até as visitas ao site de cigana Mimi foram reduzidas a uns meros quinze minutos do que sobrou no horário do almoço.
Projeto em andamento, conflitos aparecendo e sendo sanados, visitas, consultas e pesquisas sendo feitas, uma sessão de massagem encomendada para ser feita no local de trabalho pois todos estavam extenuados e mais algumas consultas rápidas para cigana Mimi e num domingo oito horas da noite aqui, pois no Japão já eram oito da manhã de segunda-feira. Todos apreensivos quando do anuncio da transferência de comando da empresa japonesa e todos os trabalhadores teriam seus pagamentos e benefícios geridos por um grupo externo e sem vinculo e que teria um local físico para eventuais reclamações instalado no país apenas alguns meses depois. Anuncio feito sistema implantado e integrado, bastava agora esperar alguns dias para verificar sua eficácia, o que na verdade levou algumas semanas, pois foram necessários alguns ajustes diante da resistência dos funcionários da empresa para recorrer ao sistema diante de alguma necessidade. Mas após esse período tudo já estava em andamento e uma proposta estava já encaminhada para o conselho de guerra que tornou a empreitada possível. Todos seriam promovidos e enfrentariam diante de um novo projeto, a instalação de uma sede em Osaka para oferecer o serviço para o país inteiro. A comemoração só foi interrompida quando a pessoa que seria a encarregada do projeto e futura gerente da sede agradeceu a todos pelo empenho, fez um pequeno relato de todos os acontecimentos e no final disse que se via obrigada a recusar a promoção e que além disso estava pedindo demissão pois estava analisando uma proposta de um novo e mais ambicioso projeto. Após espantos e protestos a recusa de nossa amiga Carolina continuou firme em sua decisão de sair da empresa.
Após se despedir de todos, refutar novamente as ofertas feitas por seus superiores, Carolina foi para casa, ligou seu computador e releu novamente a interpretação de cigana Mimi para os próximos meses:
“Não haverá prêmio pelo que agora conquistou, mas o verdadeiro horizonte está onde você ainda não conhece, mas irá a ouvir falar em breve, um convite será feito, mas recusado, pois a glória baterá em sua porta em pouco tempo.”
Para ela não havia dúvidas, tudo seria melhor e mais gratificante, os ganhos futuros e suas crenças a faziam imaginar milhares de coisas boas e promissoras. Ela agora pensava em agradecer Cigana Mimi fazendo uma doação de boa parte de sua indenização para sua instituição de caridade para demonstrar o quanto ela foi importante no sucesso desse projeto. Após realizar uma transferência eletrônica para a conta da instituição, Carolina foi para cama iniciar sua fase de recuperação física após tanto tempo se emprenhando dia de noite nesse último trabalho, seu sono veio com a certeza de que sempre poderia contar com a orientação honesta de um site que o destino colocou em seu caminho.
Naquela mesma noite, chegando em casa, Dulce vai ao quarto da irmã contar a novidade da promoção conseguida e seu futuro local de residência, como Carolina havia recusado o cargo restou a opção de oferece-lo para a segunda em comando. Para a irmã isso já na era novidade, ela conhecia bem Dulce e sabia que para obter o que desejava ela se esforçaria ao máximo para transpor os obstáculos, mesmo que esses fossem a pessoa de uma mulher muito competente e capaz, mas que tinha a pequena desvantagem de ser supersticiosa, nossa amiga Carolina se encaixava nesse perfil e não foi dificuldade alguma Dulce verificar quais eram as preferências esotéricas da concorrente e sabendo da capacidade da irmã de criar sites, encomendou um para que fosse usado por Carolina em suas novas consultas e para que a mesma se sentisse impelida a procura-lo, ela deixou um cartão feito exclusivamente para a ocasião dentro da revista sobre a mesa de Carolina fazendo parecer que foi obra do destino. O fato de ter de se cadastrar fez com que ela não desconfiasse de que ela era a única usuária de um site criado exclusivamente para manipula-la. Fazendo com que suas consultas a guiassem para que Dulce ganhasse dela os prêmios merecidos, sendo o primeiro o namorado, este por sinal já era alvo dos anseios de Dulce que pediu a irmã para dar uma dica falsa que fez com que Carolina terminasse o namoro e ela pudesse ter caminho livre para a conquista do rapaz, só que agora ele seria colocado novamente para escanteio, pois Dulce não se prenderia a um relacionamento vendo seu futuro garantido em outro país. Mas Dulce não menosprezava totalmente Carolina, ela sabia que sem a capacidade dela de liderança e gerenciamento de multitarefas a execução do trabalho seria algo quase impossível, por isso ao invés de fazê-la tomar decisões equivocadas para prejudica-la, Dulce pediu para que a irmã a orientasse para o sucesso da empreitada, o seu remanejamento dentro do grupo e que no momento do prêmio ela pensasse que existia algo muito melhor fora da empresa, deixando caminho livre para segunda opção que era Dulce.
Quanto às doações, a instituição realmente existia e era mantida pela mãe das duas manipuladoras. E nossa amiga Carolina se viu perdida novamente quando, misteriosamente, semanas depois de seu pedido de demissão ao acessar o ciganamimi.net esse não era mais encontrado. Não restou alternativa a nossa amiga, já que ela se viu novamente órfã de sua nova cigana, a não ser utilizar sua capacidade intelectual, prestar um concurso público e se enfurnar em uma repartição onde o trabalho beirava a rotina mais perfeita possível para não necessitar imaginar um futuro sem orientação dos astros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário