sexta-feira, 3 de julho de 2009

6 - NO MORE DIMENSION ZERO

Em minhas andanças pela metrópole, acabei tropeçando no video de um velho herói de infância, “Johnny Cypher in Dimension Zero”, o disco continha seis episódios fora de ordem, fiquei sabendo depois que a série contava com cento e trinta, mas tudo bem, aquilo era mais que um aperitivo, depois daria um jeito de garimpar os restantes. Com aquela relíquia nas mãos, com certeza ao chegar em casa, voltaria a ter quatro anos de idade, quando colocava a boca do fogão no peito e giraria como um louco imaginando um ciclone ser formar a minha volta, lembraria da vizinha loirinha que personificava a heroína e do meu cachorro Moby que fazia as vezes de marciano. Talvez não fizesse isso hoje, mas fui para casa sonhando com meu filho realizando as minhas peripécias de infância ao assistir aquele clássico, coitado só tinha seis anos mas era esperto o bastante para entender o enredo.
Cheguei e já briguei com a patroa, ela odiava que eu gastasse com essas, como dizia, porcarias, mas como faze-la entender que nós homens somos a soma de nossas memórias e que quando buscamos o futuro, na verdade, estamos tentando realizar os sonhos de infância com um pouco mais de malicia ou na pior das hipóteses conseguindo comprar o que não conseguimos ter quando moleques. Depois de alguns minutos de discussão e alguns trabalhos caseiros para justificar minha presença naquele domicilio, fui para a sala e chamei meu garoto. Ao entrar ele notou o estojo em minhas mãos e foi logo se atirando pensando que era um presente, deixei-o colocar para rodar, como sempre sentávamos no tapete para assistir qualquer coisa, era uma maneira de estarmos mais próximos. Confesso que desde a abertura, até o último crédito do sexto episódio fiquei hipnotizado, nada me desligou, nem me retirou do paraíso idílico e suave dos meus primeiros anos. Levei algum tempo até me lembrar de que não estava sozinho e de tirar a mão que insistia em girar algo sobre o peito, perguntei se ele havia gostado. Ele colocou a mão sob o queixo, me encarou e começou a relatar os defeitos de animação, depois desancou com a qualidade da imagem dizendo que não conseguia identificar as cores e por último, sem dó nem piedade soltou uma pergunta referente ao quarto episódio:
Caso o vilão conseguisse triunfar e destruir o universo, o que ele iria fazer quando não houvesse mais nada para destruir?”.
Levantei, retirei o video, reinstalei o game, entreguei o controle para o rapaz , passei a mão em sua cabeça e me dirigi para o quarto onde pretendia esconder o disco, as recordações ridículas do meu passado e principalmente a boca do fogão da minha mãe que me acompanhava até aquela data.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

5 - CONTOS DE GUERRILHA


Esta nota foi retirada de uma publicação online

INCIDENTE COM EXPLORADORES NO NEPAL

Uma equipe internacional de estudiosos, arqueólogos, alpinistas e exploradores sofreu um incidente próximo a complexos de cavernas situados perto do distrito de Mustang, no Nepal, a mais ou menos 125 quilômetros a noroeste de Katmandu.
Ao visitarem as cavernas, que contêm pinturas, além de textos tibetanos e fragmentos de cerâmica da era pré-cristã, o grupo foi vitima de um ataque no minimo estranho. Eles relataram que enquanto estavam nas cavernas, ouviram fortes explosões e sentiram alguns tremores subsequentes. Alguns membros do grupo tentaram sair para averiguar o que estava acontecendo, mas foram barrados por disparos de luzes que os cegaram momentaneamente. Tudo não durou mais que dez minutos, mas eles levaram mais uma hora para se recuperarem do efeito causado pela luz.
Ao sair o grupo encontrou marcas de arranhões profundos nas pedras, e também algumas rochas derretidas. Umas das cavernas que haviam sido visitadas anteriormente estava com sua entrada lacrada por vários detritos.
Nosso correspondente escutou alguns moradores da região, os mesmos informaram que luzes e tremores são frequentes nas regiões das cavernas, principalmente nos últimos anos.
As autoridades do Nepal negaram qualquer atividade militar na área, mas fontes do governo disseram que pretendem fechar a região para visitação durante o tempo que efetuarem as investigações.
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*CONTOS DE GUERRILHA* - criado por Eder Bovelo e Odair Mercham

quinta-feira, 28 de maio de 2009

4 - INAUGURAÇÃO


“Não me arrependo, ele mereceu morrer, pois a culpa foi somente dele.”

Essa foi a declaração da dona Anette ao ser presa, pelo menos o final dela, mas os fatos também falavam por si. Tudo foi planejado e executado com certa frieza, mas o motivo, a esse cabe uma pergunta, até que ponto alguém é realmente culpado pelo que acontece aos outros?
Vinte e um de Maio , dona Anette levanta-se ás quatro e vinte da madrugada, esse sacrifício é necessário para não chegar tarde ao trabalho, ela entra ás oito, mas existem outros afazeres antes de sair, o café dos dois filhos para irem ao trabalho, leite café e dois pães com manteiga na frigideira, passar a roupas de todos para o dia, seu uniforme está entre elas e o que ela entende como o mais importante, a marmita do seu marido Jorge, um mecânico que tem sua oficina ali perto. Eles moram em um bairro distante, os filhos levam em média duas horas, e várias trocas de ônibus, para chegarem ao trabalho, ao passo que dona Anette consome quase três horas do seu tempo para ir ao seu destino. Quando conseguiu este emprego ficou feliz por poder conseguir completar a renda da família, pois os rendimentos do marido não eram constantemente certos e os meninos ainda não trabalhavam, o tempo de viagem a incomodou no inicio, mas com o passar do tempo ela ajustou sua rotina a este sacrifício. Seu passatempo dentro do ônibus era o crochê, vantagem a parte, ela pegava uma única condução de ponto final a ponto final, eram metros e metros de linha e milhares de voltas na agulha e várias viagens depois nascia uma toalhinha nova, não existia casamento, aniversário ou batizado que não recebia uma de presente.
Ao chegar ao seu destino, entrava sempre com antecedência no trabalho, colocava seu uniforme impecável e ia direto para a copa da engenharia da empresa de trens da cidade, preparava o café, que podia ser o pó de pior qualidade mas sempre dava um jeito de ficar gostoso, depositava nas garrafas térmicas e colocava no carrinho e saia para distribuir entre os escritórios. Era muito querida pelos funcionários, não existia um que não desejasse seu bem, ou que não tenha recebido uma toalha de crochê . Todos conheciam seu sacrifício para estar todos os dias na empresa, principalmente o seu Júlio gerente de desenvolvimento de novas estações, dona Anette o tratava com carinho e ele retribuía, sempre dizia a ela que um dia existiria uma estação perto de sua casa e que ela poderia descansar um pouco mais, pois sua volta para casa era outro martírio , principalmente em dia de chuva, mas não se podia fazer nada contra a vontade divina. Ela agradecia a preocupação e a promessa do seu Júlio dizendo que no dia que ocorresse a inauguração ele receberia um belo presente, provavelmente mais um crochê.
Os dias passaram, viraram meses e quando completavam quatro anos dona Anette ao chegar ao trabalho recebeu a noticia de que retornaria para casa em um trem novinho, fazendo o percurso até seu bairro em trinta minutos e parando em uma estação a poucos quarterões da sua casa. Ela nunca esperara tanto a hora da saída como naquele dia vinte um de Maio. Trocou-se rapidamente e saiu em direção a estação para pegar o trem, no caminho planejou várias coisas, preparar um jantar melhor para o marido, que desta vez chegaria depois dela, com direito a bolo de fubá de sobremesa, começar a assistir a novela das seis da qual as meninas tanto falavam e terminar, sentada confortavelmente no sofá da sua sala, a toalha de crochê do seu Júlio. Muito feliz ela embarca no trem e se espanta ao sentir o vento friozinho do ar-condicionado e ao ouvir musica de elevador, após treze estações chega ao seu destino, desce do trem, sobe as escadas rolantes e contente comenta com um funcionário perto da saída que está muito feliz pois antes levava até três horas para chegar em casa e naquele dia levou vinte e cinco minutos, o funcionário agradece e sorri.
Dona Anette cruza os dois quarterões que separam a estação da sua casa, abre o portão e estranha encontrar a porta destrancada, entra silenciosamente na sala e escuta alguns ruídos vindos do seu quarto ela espia pela a porta semi-aberta e vê a cena que a levaria para o desfecho relatado no inicio. Seu marido, o mecânico, o homem de quem ela cuidava, aquele que ela pensava chegaria depois dela naquele dia, estava na cama com sua vizinha . Sua reação foi estranha, ela abriu a porta e ficou parada sobre o batente encarando os dois adúlteros, eles não esboçaram nenhuma reação a mais além do susto, totalmente atrapalhados começaram a se vestir, a vizinha assim que se recompôs olhou para Jorge e como se pedisse permissão cruzou rapidamente o olhar com Anette, esta com o rosto indiferente deslocou o corpo dando passagem para a vizinha que não pensou muito e passou pela porta. Anette ao ouvir o bater da porta da frente, desviou sua atenção para o marido, este já sabia o que viria então juntou algumas coisas e ao passar por ela disse que iria dormir na oficina. Ela sentia um ódio sufocante, a traição não era algo que sequer imaginara, todas as promessas feitas foram apagadas, seus carinhos e sua dedicação haviam sido renegados, anos de sacrifício foram jogados fora. Seus filhos iriam chegar e perguntar o que aconteceu, ela diria tudo mas deixaria de contar que sua vingança estava sendo encaminhada, o culpado pelo seu sofrimento não ficaria impune, mas não faria nada de imediato.
No dia seguinte dona Anette saiu de casa um pouco mais tarde, o rosto cansado e os olhos tristes, caminhou até a estação, entrou, foi saudada pelo funcionário mas o ignorou, desceu as escadas e embarcou no trem onde teve mais uma decepção, por algum motivo o mesmo estava rodando em marcha reduzida e pela primeira vez na sua vida chegou atrasada ao trabalho. Entrou correndo no vestiário, vestiu o uniforme amarrotado e partiu para a copa onde fez um café sem muito comprometimento, neste dia os empregados do setor exigiram a troca da marca do pó de café, como última tarefa levou um lanche para o seu Júlio que notou a mudança no humor da dona Anette, indagada ela disse que eram problemas com o marido mas que logo tudo estaria resolvido. O dia todo foi assim até a volta pra casa onde chegou mais cedo e viu que os homens haviam feito uma bagunça na cozinha pois ela não deixou nada preparado. Jorge já criara coragem e voltou para casa, mas decidiu ficar acomodado no quarto dos meninos, que mesmo sabendo da safadeza do pai aceitaram dar refugio a ele no colchonete entre as camas.
Os dias passaram e ela começou a retomar a rotina da casa, café da manhã para os filhos, roupa passada e até uma marmita para o Jorge, que desconfiado deixou intocada. No serviço tudo corria normalmente, o café havia melhorado, ela até entrou na conversa sobre a novela das seis, todos no escritório notaram a melhora no humor da dona Anette, mesmo seu Júlio, que andava tão ocupado, achou um tempo para agrada-la. Duas semanas e já estava na hora de colocar sua vingança em pratica, ninguém mais desconfiava de nada, todos agiam com naturalidade até o Jorge estava almoçando sua marmita, tudo estava pronto, amanhã na hora da refeição ele pagaria pelo que fez. Sua mãe e suas tias a ensinaram os afazeres da casa, mas também lhe transmitiram alguns segredos sobre ervas, que nunca pensou que seria necessário usar. Na noite anterior ela chamou Jorge para a cama, seria a última noite que passariam juntos, pois no dia seguinte estariam separados.
Mais um dia mais café da manhã, mais roupa passada, a última marmita do Jorge e o último crochê pro seu Júlio. Ela vai pra estação, compra o bilhete, saúda o funcionário alegremente, que realmente estranha tal atitude, embarca e enquanto esta sentada perto da janela, comete o primeiro ato de vandalismo daquele trem, com a ponta da agulha de crochê escreve uma palavra obscena que transmite a realidade de sua alegria pela vingança em andamento. No trabalho tudo voltou a normal, o café excepcional com um leve sabor amargo, a conversa com as amigas sobre o final da novela, no qual dona Anette acha que a mocinha deveria ter fugido com o irmão do mocinho e leva o lanche do seu Júlio, acompanhado de uma manta de crochê e pedindo para nunca esquece-la, ele agradece estranhando o tom solene mas deixa passar. O resto do trabalho correu como esperado, ás cinco da tarde ela sai e embarca para casa, mais uma vez os trens estão em marcha reduzida e o tempo de ida triplica. Dona Anette sabe que suas ervas já fizeram efeito e sabe também que já a devem estar esperando em sua casa para prende-la. Mas não existe arrependimento, ela nunca será atacada pelo remorso, sua fidelidade, seu carinho, sua dedicação e sua ternura haviam sido pagos com o ato de tira-la a única coisa que importava, sua ilusão de uma vida feliz.
Ela estava enganada sobre ser presa em casa, os agentes de segurança e os policiais já a estavam esperando na estação, a abordaram e deram ordem de prisão. Dona Anette foi algemada sem muita cerimonia, os usuários ficaram surpresos pensando que fosse alguma ladra. Levada para delegacia ela não escondeu nada dos fatos, relatando tudo e terminando dizendo:

“Não me arrependo, ele mereceu morrer, pois a culpa foi somente dele.”

O Delegado terminou pedindo ao escrivão que encerrasse o depoimento escrevendo que a Sra. Anette Barbosa Silva assumiu a culpa pelo assassinato do Sr. Júlio Correa Mesquita, Gerente de Desenvolvimento.

Eder Bovelo

sábado, 9 de maio de 2009

3-MEMÓRIAS DE UM ARKANÓIDE


Hoje senti o cheiro de nostalgia, acordei em uma cama com a mesma maciez, a janela filtrava a luz na intensidade correta, o som que a vizinhança emitia era do mesmo tom harmônico que tanto ouvi, a poeira do chão do meu quarto mostrou a mesma textura ao ser tocada pelos meus pés, a água em meu rosto me despertou fria como antes, os gestos e os sorrisos da família a mesa e o gosto do café eram novamente os daquele dia. Mas a certeza de que não havia retornado figurava em minha consciência, foram as histórias que se deslocaram para o futuro. Os personagens da antiga peça não mais atuavam, mas o cenário estava novamente armado. Uma música no rádio soa como a composição impregnada na minha memória. Senti novamente a tristeza de não ter feito parte, a decepção de constatar que algum talento me fora negado. Porém parece existir uma ilusão de que posso finalmente fazer algo. Pego o lápis e sinto a ponta áspera contra o papel pautado, meus dedos correm pelas linhas procurando uma rima, sabendo que a escrita não será definitiva, sempre existirá um retoque a ser feito por algum deles, meus pensamentos vagueiam pelas composições mescladas a sonoridade dos elementos circundantes. Tenho vontade de sair e mostrar meu novo exemplar poético, mas a contemporaneidade vence a batalha travada com as lembranças. O que resta é um pedaço de papel com uma única frase sem rima.

Só sei o que a geração de vocês nos contaram, ou será que falta algo a ser contado.”

Eder Bovelo

PS: Essa é uma homenagem a maior banda de garagem que já existiu.

terça-feira, 14 de abril de 2009

2 - O CRIME DO SEU GENARO

Mãos espalmadas sobre faces chorosas, era a imagem comum naquela tarde chuvosa no cemitério da cidade, todos presentes para lançar o último olhar para o homem que era, enquanto vivo, simbolo de compostura e retidão, o homem que sucumbira ao chamado fatal da ceifadora, aquele que não admitia que nomeassem desonestidade como desvio de conduta, que abominava a idéia de que um homem poderia ser levado a cometer delitos pelo simples fato de não ter posses, para ele o ser humano deveria ser, acima de tudo, integro, correto e honrado. Descia naquele jazigo o corpo sem vida de Seu Genaro. Mas o que fizera chegar tão rápido aquele estágio era um segredo que só um dos expectadores detinha, assim como o significado do epitáfio em sua lápide.

Seu Genaro mantinha uma rotina rígida, pela manhã comprava o Diário Campineiro na banca do Olavo, discutia a principal manchete, discordava da opinião do proprietário, pagava e se dirigia a passos cadenciados até o empório, lá se provia de três pãezinhos, pegos por ele mesmo, e duzentas gramas de bolacha de maisena, colocava sobre o balcão onde o Arnaldo embalava, era o único que não portava uma caderneta de “pindura”, pois pagava sempre na hora, voltava para casa, tomava seu café, sentava-se a poltrona por exatas duas horas para ler o jornal e logo depois saia novamente em caminho oposto em direção ao centro onde visitava a livraria dos Assis, era lá que ele esperava encontrar as últimas novidades dos escritos vindos diretamente da capital, caso algum livro novo despertasse sua curiosidade, era prontamente adquirido e introduzido em sua biblioteca particular, quem conhecia sua coleção dizia que ele deveria viver pelo menos mais duas encarnações para completar a leitura de todos ali depositados. Ao sair da livraria caminhava até o Buffet Fermat onde almoçava e já pedia uma refeição leve para levar para casa onde esquentariana hora do jantar. Chegando em casa se ocupava de verificar se a Dona Janete havia feito todo o serviço doméstico por ele contratado, depois ocupava uma cadeira confortável na varanda e começa a leitura do livro abandonado no dia anterior, pontualmente ás seis horas ia para a missa, hábito que mudava aos domingos pois comparecia pela manhã a igreja, voltava para casa e recolhiasse para dormir ás dez horas. O único dia que adiava seu sono era a quarta-feira, porque recebia a visita do padre Amaro com quem mantinha acaloradas discussões.

Bem a quarta-feira começara como de costume, a caminhada, o jornal, os pãezinhos, volta para casa e o café da manhã com os um, dois e três... algo errado, havia quatro pães no pacote, mas Seu Genaro tinha certeza de ter contado três ao pegar, seus pensamentos começaram a fluir, como era possível, ele a pessoa que não admitia os erros alheios errar daquele jeito e pior praticamente furtar, não, era obrigação dele ir até ao empório e ressarcir o Arnaldo, mas como manter sua postura depois de confessar seu delito, ele não poderia manter a postura de defensor da incorruptibilidade humana, e principalmente da sua. Verificou o troco, talvez tenha pago pelo pão a mais, logo confirmou que havia pagos apenas três pães. Imaginou que após confessar em público tal ato, todos passariam por ele na rua e não mais o encarassem como exemplo de conduta e sim como Genaro o falastrão e pior como Genaro o ladrão. Não, aquilo estava sendo demais para ele, começou a ter sensações alternadas de frio e calor, procurou desesperadamente por um dos calmantes de sua finada esposa Marlene, não encontrou, tentou esquecer o assunto lendo o jornal, não conseguiu, pensou em sair para o almoço, Dona Janete ficou surpresa ao encontra-lo em casa e mais ainda de ser dispensada do serviço aquela tarde, seus livros perderam a irresistível atração, se arrumou para ir a missa, mas como encarar todos os presentes sem demonstrar alguma fraqueza em sua postura. O dia transcorrera em velocidade surpreendente, tanto que se assustou com as batidas na porta, era tarde da noite, e já imaginou que era Arnaldo vindo cobra-lo e humilha-lo, abriu a porta e deu de cara com o padre Amaro que se espantou com a aparência do amigo. Genaro o fez entrar e indicou o lugar de sempre para sentar, mas ao invés de pegar a última literatura separada para discussão, ele ajoelhou e disse que nunca até aquele momento havia necessitado se confessar, mas naquela tarde tinha pecado pela primeira vez. Padre Amaro escutou espantado o relato e ao final não sabia se ria ou sentia compaixão pelo pobre homem ali prostrado. Genaro recusou veementemente a opinião do padre de que aquilo era um delito insignificante, e pediu a penitência merecida, Amaro não teve outra escolha a não ser aplicar o sacramento e ir embora mais cedo do que de costume e deixa-lo com seus lamentos.

Após uma noite sem o convite do sono, Genaro pulou algumas etapas de seu roteiro e foi direto ao empório do Arnaldo portando um fardo com quatro pães intocados, ele queria ser o primeiro cliente daquela manhã para evitar a presença de outras pessoas em sua humilhação pública. Ao entrar Genaro notou que o ajudante retirava uma tabuleta, que não havia notado no dia anterior, onde indicava:

__“Toda quarta compre três pães e leve quatro.”

Sentiu um leve aperto no peito, dobrou os joelhos e caiu com a face voltada para o chão, segurando firmemente a prova de um crime que não cometera. No dia seguinte sob a chuva, além de se indagarem o motivo que o havia levado ao infarto fulminante, o mistério maior ficava por conta do significado da frase final em seu túmulo, mas era um segredo quase de confissão que só o padre Amaro sabia, pois a mesma gerou semanas intermináveis de discussões entre eles sem chegarem a acordo algum.

__“Talvez ao encontrarmos os Deuses, descubramos que eles também os procuram.”

Eder Bovelo



quinta-feira, 9 de abril de 2009

1 - DEGUSTAÇÃO - GASTRONOMIA LITERÁRIA


PROVEMOS O QUE HÁ DE MAIS GOSTOSO E DE MELHOR PARA NOSSOS OLHOS E MENTE.
VISUALIZEMOS AS PALAVRAS QUE NOS TORNAM MELHORES E MAIS GENTIS.
SEJAMOS AQUILO QUE IMAGINAMOS E NOS TORNEMOS INDIVIDUOS VERBAIS.