sábado, 19 de dezembro de 2009

9 - A FESTA


Existem aquelas vezes em que a torcida é tanta que o impossível se realiza, mas esta não era uma delas. O Agenor conseguiu chegar ás dezenove horas em ponto, ô pontualidade infeliz, estacionou seu fusca 73 em frente a minha casa e como de costume, ralou o pneu traseiro na guia, e vendo aquela demonstração de perícia automobilística, me veio na cabeça, “Graças a Deus que não faço serviço externo com ele”. No momento em que ele saiu do carro cumprimentei-o da maneira mais gentil que conhecia, já mandei-lhe a “puta que pariu”, o mesmo me devolveu a gentileza em igual tom cortês. Entramos no carro e depois de uns cinco minutos tentando fechar a bendita da porta, partimos rumo ao calvário.
Agora pode-se imaginar que estávamos indo para a ”gandaia” numa sexta-feira a noite, ledo engano, fomos convidados, ou melhor intimados a comparecer a uma festa social em um clube requintado da cidade; até ai nada demais. Porém, a festa era da empresa onde trabalhávamos. Veja se não existe coisa mais chata que isto, quando é um evento informal, churrasco, futebol, cerveja e churrasco novamente, pode-se suportar, mas em traje de gala é de lascar. Sinceramente, penso que os grandões fazem este tipo de coisa para demonstrar o quanto somos proletariados e que não temos a minima chance de atingirmos o nível deles. No caminho , o meu companheiro foi indagando se estava bem vestido e eu respondia a todo questionamento com um sim semi-cerrado entre os dentes; como se um sujeito com um metro e sessenta e cento e dez quilos, que mais parecia um monstro saído de um seriado japonês, pudesse estar bem dentro de um smoking. Minha paciência já ia pras cucuias quando finalmente chegamos ao local, entregamos o carro ao manobrista que com certeza se matou para guiar a jabiraca até o estacionamento, isso se não encostou no ferro-velho mais próximo xingando até o papa pelo transtorno. Ao entrarmos no saguão demos logo de cara com uma loira toda de vermelho, ela era uma dessas modelos que fazem esses bicos para tirarem alguma grana extra no fim do mês, tinha aquela beleza agressiva que nos é imposta pela mídia burguesa e de brinde trazia um sorriso que mais parecia estar tatuado em seu rosto. Sem muita embromação lhe demos nossos convites que logo nos indicou o salão principal, juro que pra mim ela dizia com seus olhos verdes “bem vindos ao inferno”. Ao chegarmos as portas do purgatório, tive a impressão de que rico adorava gastar para ostentar, mas gosta de gastar um pouco mais só para nos humilhar. O lugar estava simplesmente cheio do bom e do melhor, até meu companheiro, que assim que conseguiu tirar os olhos de cima da loira, ficou estupefato com tamanha pujança. Neste momento uma questão me assolou, onde diabos iriamos ficar, visto que os convites só nos reservava a entrada e nem sequer trazia um mapa das mesas; porém uma vez na boca do leão, qual não foi nossa sorte ao perceber que já haviam solucionado este pequeno inconveniente. Ao olharmos para os convidados já assentados notamos que existia uma tênue divisão de escalão. A diretoria estava reunida num canto a direita, seguindo-se logo por gerentes, encarregados, lideres e por fim , terminando num aglomerado mais numeroso à esquerda onde deveríamos nos juntar, ou seja, a boa e velha plebe. A turma toda estava lá, alguns com as respectivas patroas, outros já tinham em quem se escorar, excetuando-se eu, Agenor, Cleber e o Cláudio, foi meio engraçado quando o Cleber levantou o pescoço fazendo uma panorâmica em busca de carne nova para o abate, mas logo notou que ia ser meio difícil fisgar alguém, especialmente pelo fato da mulherada interessante estar acomodada no setor capitalista. Ai levanta-se a seguinte questão: Onde estava o mulherio solteiro do nosso nível? Resposta: Tentando fazer o mesmo que nós.
A demonstração de altruísmo dos senhores feudais rolava numa boa, já tendo servido a entrada e partindo para o prato principal, o Cláudio solta a expressão mais simpática de seu vocabulário “Vai tomar no...” interrompida quando ele viu o olhar de desaprovação da senhora ao lado, é que ele realmente não sabia o que fazer com mais de um garfo e faca, e garanto que muito menos eu e deixei os comentários de etiqueta com o resto da turma. Já ia pelas vinte duas quando decidimos juntar os solteirões para assaltar o bar, nova decepção, os caras não serviam cerveja, logo, tivemos que nos contentar com uísque, gim-tônica e outros destilados que só vimos nas prateleiras dos hipermercados. Conversamos um pouco do que normalmente falávamos no trabalho, percebemos que aquilo era mesmo um circo e fomos nos escorar na amurada que ficava um pouco acima da ala burguesa, nos postamos no local e notamos que os distintos cavalheiros nos observavam com um certo desdém, talvez se indagando se estávamos planejando alguma revolução cubana, o que não passou de mera especulação. Avistávamos do local a pista principal, observávamos a tudo e a todos com uma bela visão da banda contratada, que tocava umas músicas que eu só ouvia em formatura . Como que por sincronismo paramos o olhar em um mesmo ponto do outro lado do salão. Lá encontrava-se uma mulher de estatura média, corpo esguio, trajando um longo vestido preto com um grande decote nas costas, cabelos castanhos escuros meio que preso meio que solto o que deixava seu pescoço um pouco longo, mas não ao ponto de chama-la de girafa, tinha o rosto firme mas debaixo daquele semblante duro e carregado algo me era familiar, impressão que ficou ainda pior quando o Agenor proferiu um nome -”Neide”- O olhei com a cara mais assustada que se pode ter em um momento de horror e gaguejei uma pergunta:
Que-quem você disse que era?” O coitado vendo que eu demonstrava um interesse além do normal, foi logo me alertando:
“Esquece mano, a mina ali é in.”
“In???”
“É in, inatingível, intocável, inexpugnável e principalmente incalculavelmente distante de gente como nós.”
“Mas oque você sabe dela?”
Insisti.
Bem, o que eu sei é que ela é responsável pela área social da empresa, trata direto com presidente e que foi ela que organizou toda essa esbórnia
Mas não podia ser, havia algo nela que me lembrava alguém do passado, o mesmo nome, o mesmo porte, porém o rosto carregado e marcado me deixava a dúvida que devia ser sanada, indaguei novamente agora sobre o estado civil da moça, respondido sutilmente pelo meu colega:
Você tá louco mesmo né ô idiota, mas já que você quer saber, a fulana ali é descompromissada, alguns figurões tentaram grampea-la sem sucesso e só não foi demitida porque ela é muito boa no que faz. E antes que você me pergunte como sei tanto, tá vendo aquela baixinha gordinha sem nariz ali no meio da ala Vip, é a Margarida, ela trabalha de recepcionista no andar da diretoria, além disso é minha prima, foi ela que nos arranjou este emprego.
Não sei oque me motivava, sai de perto da turma e fui em direção aquela mulher, alguém disse ao longe que eu ia me dar mal ou coisa que o valha. Mas aquela maldita dúvida estava me corroendo , tinha de sacia-la, tinha de ser ela, ou não, poxa haviam passado-se quinze anos e mesmo que fosse, será que se lembrava de mim, e se não. Bem, a decisão estava tomada, qualquer coisa era só dizer que era engano e torcer para nunca mais cruzar com ela por aí. Passei por um garçom, peguei duas taças de champanhe, pelo menos notei que ela não segurava nada, esperei ela ficar a sós e de costas para onde me encontrava, assim pude me aproximar dela e dizer oque tinha bolado, bolado é força de expressão, saiu sem ao menos pensar.
Espero que quinze anos não a tenham feito esquecer de um velho amigo?”
Ela começou a se virar, tudo dentro de mim tremia, aquela virada durava uns dez minutos, dentro da minha cabeça é claro, mas foi ela fixar os olhos em mim e fazer uma cara de interrogação que pensei, “diabo, lascou, vou ter de arranjar uma bela desculpa”.Entretanto, o devaneio foi logo interrompido, aquela mulher abriu um sorriso tão lindo que não havia mais dúvida, era a Neide , caramba, era a minha Neide, Ela cobriu a distância entre nós em milésimos de segundo, a noção de tempo fica estranha nestas horas, e me abraçou com tanta força que tive de me firmar para não derrubar as taças.
Eu não acredito que é você?” disse ela se afastando um pouco.
Pois acredite, sou eu mesmo.” Entreguei uma taça a ela.
Nossa, a última vez que te vi foi...”
Foi quando fui pagar uma conta no banco onde você trabalhava.” Interrompi, lembrando do tempo que ela era apenas uma auxiliar de contas a pagar. Bem a conversa se desenrolou como se não houvesse mais ninguém ali. Exceto na hora em que olhei para minha galera e notei uma miscelânea de expressões de espanto, mas foi só por um breve momento, pois eu não sentia aquela alegria e aquele prazer de compartilhar algo tão bom desde a época em que convivíamos juntos, claro que naquele tempo eu nutria uma paixão secreta por ela, mas isso no momento não vinha ao caso, um ruído diferente me fez despertar, a banda começou a tocar uma música velha conhecida nossa e ao som dos primeiros acordes tomei coragem e falei:
Neide, que tal você realizar um antigo sonho meu?”
“Qual?”
“Eu queria ter a honra e o prazer de dançar com a menina mais linda do colégio.”
Não sei se ela ficou vermelha ou eu estava vendo tudo em tom de rosa, mas quando lhe ofereci o meu braço para conduzi-la à pista, ela simplesmente sorriu e aceitou. O garçom apareceu no momento exato de recolher nossas taças. Descemos os degraus que nos separavam dos outros casais que já giravam ao som hipnótico, nisso todos os meus companheiros já haviam desabados sentados e abismados com a cena. Nos colocamos de frente uma para o outro, passei minhas mãos pela sua cintura, ela enlaçou meu pescoço com seus braços longos e dançamos até o final da música, mas quando começou a segunda canção, senti que algo havia mudado. Ela voltara a fechar o semblante e com a voz um pouco embargada praticamente sussurrou:
Sabe, foi ótimo te encontrar, falar dos velhos tempos, mas existem coisas que ficaram no passado, na nossa juventude e que não nos pertencem mais...”
Eu sabia exatamente oque era, pois estava sentindo o mesmo, então cochichei em seu ouvido:
“Talvez na adolescência tivéssemos a impressão de que qualquer sonho era realizável, mas hoje eu percebo que nem o tempo, - a afastei com os braços estendidos – e nem a distancia – a puxei num giro- me impediram de realizar este sonho, aqui e agora.”
Não houve reação e nem sequer um motivo, ela simplesmente me beijou no rosto e disse: “Obrigada” Em seguida me largou no meio da pista e foi embora, era um pouco antes da meia-noite, pensei que ela havia partido, caso contrário viraria abóbora.
Porém a verdade fez-se nítida uma semana depois. O Agenor ainda ressabiado e abismado, diga-se de passagem, com o episódio, conversou com sua prima e disse que a Neide havia pedido demissão na segunda feira seguinte a festa. Um mês depois eu estava meio enroscado com um servicinho porco que o Cleber havia me deixado, quando chega o boy da firma com uma correspondência. Imaginei logo que era a carta de alforria, mas era algo inesperado, ele me entregou um envelope e dentro continha um postal que na sua foto mostrava uma paisagem urbana e ao fundo a Torre Eiffel. Tomei uma certa coragem e fui até meu chefe.
Hoje estou aqui realizando sonhos, os meus e de outras pessoas, tenho um estúdio de gravação nos fundos da minha pequena livraria onde até o Agenor gravou o primeiro disco do grupo de samba dele, só não sabia que quando ele cantava a voz dele parecia tanto com a da Clara Nunes, mas deixa pra lá. Sob o vidro do balcão está o postal , que de tempos em tempos é retirado para que eu possa rememorar as palavras que me trouxeram até aqui:
“Talvez o passado não mais nos pertença, mas não custa nada olhar para trás e tomar algo de volta. Lembre-se os sonhos são realidades que as realidades alheias impedem de tornassem realidades”
De sua eterna sonhadora NEIDE.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

8 - CONTOS DE GUERRILHA 2

MISTÉRIO NA JORDÂNIA
Uma área de 2 mil metros quadrados, registrou temperaturas de quase 400°C. A história foi descoberta por pastores que observavam um rebanho de ovelhas. “ Os bichos entraram no terreno para pastar, de repente começaram a queimar e desapareceram”. Disse o governador da região. A hipótese até aqui é uma peculiar reação de materiais orgânicos liberados por esgotos improvisados.
Publicado em outubro de 2009

*Relatório de PTPD 2658/2008
– Confronto com milícia
- Analise da ocorrência e possível localização

-Chegamos ao local informado pelas autoridades da Jordânia, onde encontramos um pequeno povoado que, pelos relatos dos habitantes, sempre foi vítimas de ataques de milícias por causa da pequena produção de alimentos e pelos poucos poços d'água da região. Mas estas ocorrências estavam diminuindo nos últimos tempos por causa da presença de um forasteiro que montou uma estrutura de defesa rudimentar mas eficiente. Ao que tudo aparenta, ele pode ser um dos fugitivos PTPD de classificação JDN 235. O fato de termos informações de sua estadia neste local, reafirma a ideia de que, mesmo com seus centros de memórias alterados, os experimentos estão voltando para seus locais de origem, ou algo próximo as suas experiências passadas.
-Tudo indica que o experimento utilizou amplificação e concentração de energia solar, confirmando sua identidade (JDN 235). Buscas foram realizadas, mas não encontramos vestígios de sua passagem por nenhum lugar. A possibilidade de ter se encaminhado para alguma área montanhosa é praticamente nula. Nosso satélite já demarcou a área provável para analise de aumento súbito de calor. Estamos agora nos dirigindo com nossas forças para o Nepal, para investigar incidente na região de Mustang.

* CONTOS DE GUERRILHA * criado por Eder Bovelo e Odair Mercham

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

7 - CONFESSOR

Ele saiu tropego vindo da sacristia , seus pés não respondiam ao seu intento, parecia tomado por tremores e temores, de sua boca escorria uma saliva grossa, o peito arfava buscando um último resquício de ar, em sua mente visões de demônios que só conhecera em citações bíblicas e outros tomos apócrifos. Nada poderia salva-lo do que estava consumindo, sua visita ali fora apenas a última esperança de remissão de seus erros e principalmente do seu pecado maior, cometido naquela mesma tarde, mas sua vida devotada ao caminho correto acabara de ser arrancada a força junto com seu sangue, Mas sua surpresa maior era a identidade de seu punidor, a pessoa de quem ele havia recebido seus segredos, naquele instante revelava seu último e derradeiro relato, acompanhado de toda dor sentida por ele quando sentiu o silvo perene em seu pescoço e depois a dormência doce do sono milenar. Porém para ele não haveria salvação, aquilo era um julgamento, sua visão ficaria turva, sua pela não sentiria o toque, a fragrância que sentia naquele instante era salgada, mas não como a maresia que tanto gostava, sua voz deixou uma monossilaba em um cubículo há alguns metros atrás.
A visão de seu pecado retornara naquele instante, um momento de fúria, um lampejo de ódio, cegueira seguida de ação desmedida e depois a simples sensação de um peso em seus braços, o resultado do acumulo de anos de possessivos, de olhos ciumentos, de desconfiança incutida. Tudo terminava com o objeto de seu desejo e destino de suas caricias pressionado entre suas mãos, com a pele que tanto roçara ternamente descamando em seus dedos. A mão punidora era visível, sua esperança repousava em seu sagrado pupilo. Largou o ato infame em seu leito e fugiu para cruzar as portas redenção. O relato foi breve, a atenção recebida foi uma dádiva, mas a penitência inesperada. Após ser recitado em seu ouvido a ladainha de perdão o que faltaria apenas era o ato punidor, uma mão passou a segurar seu queixo, a outra seu peito, enquanto um rosnado se aproximava e arrancava nacos de sua garganta.
A constatação de que estava morrendo não o surpreendia mais do que a visão animalesca e profana do sacerdote que ajudara a ordenar, talvez seu maior castigo seja estar morrendo sem ao menos imaginar quem poderia ter corrompido seu filho.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

6 - NO MORE DIMENSION ZERO

Em minhas andanças pela metrópole, acabei tropeçando no video de um velho herói de infância, “Johnny Cypher in Dimension Zero”, o disco continha seis episódios fora de ordem, fiquei sabendo depois que a série contava com cento e trinta, mas tudo bem, aquilo era mais que um aperitivo, depois daria um jeito de garimpar os restantes. Com aquela relíquia nas mãos, com certeza ao chegar em casa, voltaria a ter quatro anos de idade, quando colocava a boca do fogão no peito e giraria como um louco imaginando um ciclone ser formar a minha volta, lembraria da vizinha loirinha que personificava a heroína e do meu cachorro Moby que fazia as vezes de marciano. Talvez não fizesse isso hoje, mas fui para casa sonhando com meu filho realizando as minhas peripécias de infância ao assistir aquele clássico, coitado só tinha seis anos mas era esperto o bastante para entender o enredo.
Cheguei e já briguei com a patroa, ela odiava que eu gastasse com essas, como dizia, porcarias, mas como faze-la entender que nós homens somos a soma de nossas memórias e que quando buscamos o futuro, na verdade, estamos tentando realizar os sonhos de infância com um pouco mais de malicia ou na pior das hipóteses conseguindo comprar o que não conseguimos ter quando moleques. Depois de alguns minutos de discussão e alguns trabalhos caseiros para justificar minha presença naquele domicilio, fui para a sala e chamei meu garoto. Ao entrar ele notou o estojo em minhas mãos e foi logo se atirando pensando que era um presente, deixei-o colocar para rodar, como sempre sentávamos no tapete para assistir qualquer coisa, era uma maneira de estarmos mais próximos. Confesso que desde a abertura, até o último crédito do sexto episódio fiquei hipnotizado, nada me desligou, nem me retirou do paraíso idílico e suave dos meus primeiros anos. Levei algum tempo até me lembrar de que não estava sozinho e de tirar a mão que insistia em girar algo sobre o peito, perguntei se ele havia gostado. Ele colocou a mão sob o queixo, me encarou e começou a relatar os defeitos de animação, depois desancou com a qualidade da imagem dizendo que não conseguia identificar as cores e por último, sem dó nem piedade soltou uma pergunta referente ao quarto episódio:
Caso o vilão conseguisse triunfar e destruir o universo, o que ele iria fazer quando não houvesse mais nada para destruir?”.
Levantei, retirei o video, reinstalei o game, entreguei o controle para o rapaz , passei a mão em sua cabeça e me dirigi para o quarto onde pretendia esconder o disco, as recordações ridículas do meu passado e principalmente a boca do fogão da minha mãe que me acompanhava até aquela data.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

5 - CONTOS DE GUERRILHA


Esta nota foi retirada de uma publicação online

INCIDENTE COM EXPLORADORES NO NEPAL

Uma equipe internacional de estudiosos, arqueólogos, alpinistas e exploradores sofreu um incidente próximo a complexos de cavernas situados perto do distrito de Mustang, no Nepal, a mais ou menos 125 quilômetros a noroeste de Katmandu.
Ao visitarem as cavernas, que contêm pinturas, além de textos tibetanos e fragmentos de cerâmica da era pré-cristã, o grupo foi vitima de um ataque no minimo estranho. Eles relataram que enquanto estavam nas cavernas, ouviram fortes explosões e sentiram alguns tremores subsequentes. Alguns membros do grupo tentaram sair para averiguar o que estava acontecendo, mas foram barrados por disparos de luzes que os cegaram momentaneamente. Tudo não durou mais que dez minutos, mas eles levaram mais uma hora para se recuperarem do efeito causado pela luz.
Ao sair o grupo encontrou marcas de arranhões profundos nas pedras, e também algumas rochas derretidas. Umas das cavernas que haviam sido visitadas anteriormente estava com sua entrada lacrada por vários detritos.
Nosso correspondente escutou alguns moradores da região, os mesmos informaram que luzes e tremores são frequentes nas regiões das cavernas, principalmente nos últimos anos.
As autoridades do Nepal negaram qualquer atividade militar na área, mas fontes do governo disseram que pretendem fechar a região para visitação durante o tempo que efetuarem as investigações.
-
*CONTOS DE GUERRILHA* - criado por Eder Bovelo e Odair Mercham

quinta-feira, 28 de maio de 2009

4 - INAUGURAÇÃO


“Não me arrependo, ele mereceu morrer, pois a culpa foi somente dele.”

Essa foi a declaração da dona Anette ao ser presa, pelo menos o final dela, mas os fatos também falavam por si. Tudo foi planejado e executado com certa frieza, mas o motivo, a esse cabe uma pergunta, até que ponto alguém é realmente culpado pelo que acontece aos outros?
Vinte e um de Maio , dona Anette levanta-se ás quatro e vinte da madrugada, esse sacrifício é necessário para não chegar tarde ao trabalho, ela entra ás oito, mas existem outros afazeres antes de sair, o café dos dois filhos para irem ao trabalho, leite café e dois pães com manteiga na frigideira, passar a roupas de todos para o dia, seu uniforme está entre elas e o que ela entende como o mais importante, a marmita do seu marido Jorge, um mecânico que tem sua oficina ali perto. Eles moram em um bairro distante, os filhos levam em média duas horas, e várias trocas de ônibus, para chegarem ao trabalho, ao passo que dona Anette consome quase três horas do seu tempo para ir ao seu destino. Quando conseguiu este emprego ficou feliz por poder conseguir completar a renda da família, pois os rendimentos do marido não eram constantemente certos e os meninos ainda não trabalhavam, o tempo de viagem a incomodou no inicio, mas com o passar do tempo ela ajustou sua rotina a este sacrifício. Seu passatempo dentro do ônibus era o crochê, vantagem a parte, ela pegava uma única condução de ponto final a ponto final, eram metros e metros de linha e milhares de voltas na agulha e várias viagens depois nascia uma toalhinha nova, não existia casamento, aniversário ou batizado que não recebia uma de presente.
Ao chegar ao seu destino, entrava sempre com antecedência no trabalho, colocava seu uniforme impecável e ia direto para a copa da engenharia da empresa de trens da cidade, preparava o café, que podia ser o pó de pior qualidade mas sempre dava um jeito de ficar gostoso, depositava nas garrafas térmicas e colocava no carrinho e saia para distribuir entre os escritórios. Era muito querida pelos funcionários, não existia um que não desejasse seu bem, ou que não tenha recebido uma toalha de crochê . Todos conheciam seu sacrifício para estar todos os dias na empresa, principalmente o seu Júlio gerente de desenvolvimento de novas estações, dona Anette o tratava com carinho e ele retribuía, sempre dizia a ela que um dia existiria uma estação perto de sua casa e que ela poderia descansar um pouco mais, pois sua volta para casa era outro martírio , principalmente em dia de chuva, mas não se podia fazer nada contra a vontade divina. Ela agradecia a preocupação e a promessa do seu Júlio dizendo que no dia que ocorresse a inauguração ele receberia um belo presente, provavelmente mais um crochê.
Os dias passaram, viraram meses e quando completavam quatro anos dona Anette ao chegar ao trabalho recebeu a noticia de que retornaria para casa em um trem novinho, fazendo o percurso até seu bairro em trinta minutos e parando em uma estação a poucos quarterões da sua casa. Ela nunca esperara tanto a hora da saída como naquele dia vinte um de Maio. Trocou-se rapidamente e saiu em direção a estação para pegar o trem, no caminho planejou várias coisas, preparar um jantar melhor para o marido, que desta vez chegaria depois dela, com direito a bolo de fubá de sobremesa, começar a assistir a novela das seis da qual as meninas tanto falavam e terminar, sentada confortavelmente no sofá da sua sala, a toalha de crochê do seu Júlio. Muito feliz ela embarca no trem e se espanta ao sentir o vento friozinho do ar-condicionado e ao ouvir musica de elevador, após treze estações chega ao seu destino, desce do trem, sobe as escadas rolantes e contente comenta com um funcionário perto da saída que está muito feliz pois antes levava até três horas para chegar em casa e naquele dia levou vinte e cinco minutos, o funcionário agradece e sorri.
Dona Anette cruza os dois quarterões que separam a estação da sua casa, abre o portão e estranha encontrar a porta destrancada, entra silenciosamente na sala e escuta alguns ruídos vindos do seu quarto ela espia pela a porta semi-aberta e vê a cena que a levaria para o desfecho relatado no inicio. Seu marido, o mecânico, o homem de quem ela cuidava, aquele que ela pensava chegaria depois dela naquele dia, estava na cama com sua vizinha . Sua reação foi estranha, ela abriu a porta e ficou parada sobre o batente encarando os dois adúlteros, eles não esboçaram nenhuma reação a mais além do susto, totalmente atrapalhados começaram a se vestir, a vizinha assim que se recompôs olhou para Jorge e como se pedisse permissão cruzou rapidamente o olhar com Anette, esta com o rosto indiferente deslocou o corpo dando passagem para a vizinha que não pensou muito e passou pela porta. Anette ao ouvir o bater da porta da frente, desviou sua atenção para o marido, este já sabia o que viria então juntou algumas coisas e ao passar por ela disse que iria dormir na oficina. Ela sentia um ódio sufocante, a traição não era algo que sequer imaginara, todas as promessas feitas foram apagadas, seus carinhos e sua dedicação haviam sido renegados, anos de sacrifício foram jogados fora. Seus filhos iriam chegar e perguntar o que aconteceu, ela diria tudo mas deixaria de contar que sua vingança estava sendo encaminhada, o culpado pelo seu sofrimento não ficaria impune, mas não faria nada de imediato.
No dia seguinte dona Anette saiu de casa um pouco mais tarde, o rosto cansado e os olhos tristes, caminhou até a estação, entrou, foi saudada pelo funcionário mas o ignorou, desceu as escadas e embarcou no trem onde teve mais uma decepção, por algum motivo o mesmo estava rodando em marcha reduzida e pela primeira vez na sua vida chegou atrasada ao trabalho. Entrou correndo no vestiário, vestiu o uniforme amarrotado e partiu para a copa onde fez um café sem muito comprometimento, neste dia os empregados do setor exigiram a troca da marca do pó de café, como última tarefa levou um lanche para o seu Júlio que notou a mudança no humor da dona Anette, indagada ela disse que eram problemas com o marido mas que logo tudo estaria resolvido. O dia todo foi assim até a volta pra casa onde chegou mais cedo e viu que os homens haviam feito uma bagunça na cozinha pois ela não deixou nada preparado. Jorge já criara coragem e voltou para casa, mas decidiu ficar acomodado no quarto dos meninos, que mesmo sabendo da safadeza do pai aceitaram dar refugio a ele no colchonete entre as camas.
Os dias passaram e ela começou a retomar a rotina da casa, café da manhã para os filhos, roupa passada e até uma marmita para o Jorge, que desconfiado deixou intocada. No serviço tudo corria normalmente, o café havia melhorado, ela até entrou na conversa sobre a novela das seis, todos no escritório notaram a melhora no humor da dona Anette, mesmo seu Júlio, que andava tão ocupado, achou um tempo para agrada-la. Duas semanas e já estava na hora de colocar sua vingança em pratica, ninguém mais desconfiava de nada, todos agiam com naturalidade até o Jorge estava almoçando sua marmita, tudo estava pronto, amanhã na hora da refeição ele pagaria pelo que fez. Sua mãe e suas tias a ensinaram os afazeres da casa, mas também lhe transmitiram alguns segredos sobre ervas, que nunca pensou que seria necessário usar. Na noite anterior ela chamou Jorge para a cama, seria a última noite que passariam juntos, pois no dia seguinte estariam separados.
Mais um dia mais café da manhã, mais roupa passada, a última marmita do Jorge e o último crochê pro seu Júlio. Ela vai pra estação, compra o bilhete, saúda o funcionário alegremente, que realmente estranha tal atitude, embarca e enquanto esta sentada perto da janela, comete o primeiro ato de vandalismo daquele trem, com a ponta da agulha de crochê escreve uma palavra obscena que transmite a realidade de sua alegria pela vingança em andamento. No trabalho tudo voltou a normal, o café excepcional com um leve sabor amargo, a conversa com as amigas sobre o final da novela, no qual dona Anette acha que a mocinha deveria ter fugido com o irmão do mocinho e leva o lanche do seu Júlio, acompanhado de uma manta de crochê e pedindo para nunca esquece-la, ele agradece estranhando o tom solene mas deixa passar. O resto do trabalho correu como esperado, ás cinco da tarde ela sai e embarca para casa, mais uma vez os trens estão em marcha reduzida e o tempo de ida triplica. Dona Anette sabe que suas ervas já fizeram efeito e sabe também que já a devem estar esperando em sua casa para prende-la. Mas não existe arrependimento, ela nunca será atacada pelo remorso, sua fidelidade, seu carinho, sua dedicação e sua ternura haviam sido pagos com o ato de tira-la a única coisa que importava, sua ilusão de uma vida feliz.
Ela estava enganada sobre ser presa em casa, os agentes de segurança e os policiais já a estavam esperando na estação, a abordaram e deram ordem de prisão. Dona Anette foi algemada sem muita cerimonia, os usuários ficaram surpresos pensando que fosse alguma ladra. Levada para delegacia ela não escondeu nada dos fatos, relatando tudo e terminando dizendo:

“Não me arrependo, ele mereceu morrer, pois a culpa foi somente dele.”

O Delegado terminou pedindo ao escrivão que encerrasse o depoimento escrevendo que a Sra. Anette Barbosa Silva assumiu a culpa pelo assassinato do Sr. Júlio Correa Mesquita, Gerente de Desenvolvimento.

Eder Bovelo

sábado, 9 de maio de 2009

3-MEMÓRIAS DE UM ARKANÓIDE


Hoje senti o cheiro de nostalgia, acordei em uma cama com a mesma maciez, a janela filtrava a luz na intensidade correta, o som que a vizinhança emitia era do mesmo tom harmônico que tanto ouvi, a poeira do chão do meu quarto mostrou a mesma textura ao ser tocada pelos meus pés, a água em meu rosto me despertou fria como antes, os gestos e os sorrisos da família a mesa e o gosto do café eram novamente os daquele dia. Mas a certeza de que não havia retornado figurava em minha consciência, foram as histórias que se deslocaram para o futuro. Os personagens da antiga peça não mais atuavam, mas o cenário estava novamente armado. Uma música no rádio soa como a composição impregnada na minha memória. Senti novamente a tristeza de não ter feito parte, a decepção de constatar que algum talento me fora negado. Porém parece existir uma ilusão de que posso finalmente fazer algo. Pego o lápis e sinto a ponta áspera contra o papel pautado, meus dedos correm pelas linhas procurando uma rima, sabendo que a escrita não será definitiva, sempre existirá um retoque a ser feito por algum deles, meus pensamentos vagueiam pelas composições mescladas a sonoridade dos elementos circundantes. Tenho vontade de sair e mostrar meu novo exemplar poético, mas a contemporaneidade vence a batalha travada com as lembranças. O que resta é um pedaço de papel com uma única frase sem rima.

Só sei o que a geração de vocês nos contaram, ou será que falta algo a ser contado.”

Eder Bovelo

PS: Essa é uma homenagem a maior banda de garagem que já existiu.