Peço desculpas por demorar tanto em publicar algo novo, mas a inspiração foi embora, e só voltou ontem.
Segunda-Feira
Dentro do metrô um celular toca, o que o deixava pensando se isso seria possível em um túnel cravado sob a cidade. Dúvida sanada ao pegar o próprio celular e verificar que havia sinal. Nisso uma voz o desperta da admiração causada por aqueles tracinhos no visor do seu aparelho.
"Oi, é a Meire."
Ao procurar a dona da voz, não foi a surpresa de ver alguém conhecido, ou a beleza que ela poderia ter, ou muito menos o choque de estar diante da mulher que mudaria sua vida, que o abalara era o nome, um nome que sempre causou um estremecimento em seus pensamentos, pois a primeira pessoa que conheceu, portadora deste nome, não mais existia. Seu olhar mediu cada detalhe daquela mulher, seu cabelo liso e castanho, seus olhos claros e emoldurados por sobrancelhas levemente desenhadas, seus lábios vermelhos que insistiam em manter um sorriso, mesmo que leve, quando fechados e um par de pernas, que prometiam mais do que mostravam.
Quando sua conversa telefônica acabou, ela se viu observada por aquele estranho, mas ao invés de desviar o olhar, ela o manteve como que o convidando a cortejá-la. Ele sempre exibiu um porte atlético e a altura ajudava a distribuir uniformemente seus músculos, isso sempre facilitou suas investidas e seus intentos. O lugar ao lado dela ficou vago e não houve duvida ele foi sentar-se lá. Não teve segredo no inicio da conversa, nome, trabalho, elogios, aquele monte de coisas que se falam durante uma primeira abordagem, falas que aos ouvidos alheios parecem baboseiras, mas entre duas pessoas com interesse mutuo, tornam-se poéticas. Talvez se ela não estivesse disposta a aceita-lo, ele teria de se esforçar um pouco mais para impressioná-la. A conversa durou exata seis estações, todas embaladas pelo som de um MP3 que um fulano, o qual, mesmo com fones de ouvido, insistia em preencher o vagão com uma música de bom gosto, terminaram a viajem ao som de "Alphaville" do Bryan Ferry. Chegando ao destino dela, se despediram sem a troca de números de telefone, de endereços, ou de um "me adiciona no face", foi um simples e curto "até mais ".
Terça – Feira
Mesmo horário, mesmo vagão, só que três estações antes. Ele não sabia se a encontraria novamente, mas resolveu tentar. Quando o Metrô chegou e abriu suas portas, ele a viu sentada e com o lugar vago ao seu lado. Apressando-se a ocupá-lo notou que ela estava com a respiração oscilante, logicamente pensando que a sua presença havia causado tal reação. Mal sabia ele que na estação anterior ela havia se esforçado para descer a escada pulando vários degraus, atravessado um bom pedaço da plataforma correndo para entrar no vagão certo e pela porta certa. Sendo o que ele pensava ser excitação, era na verdade o ritmo do coração dela voltando ao normal.
A conversa começou do ponto onde parara no dia anterior, colocando mais alguns detalhes alheios em evidência. Ela havia saído recentemente de um relacionamento, e ele terminara, havia pouco tempo, mais um dos seus relacionamentos problemáticos. Ela percebeu seu ar de tristeza, mas manteve a conversa alegre. Mas para ele, aquela alegria era sinal de que Meire tornava-se um novo objetivo, uma nova inspiração, algo que voltava a animá-lo, e talvez ele pudesse voltar a fazer o que gostava ou, o que ele achava que tinha nascido para fazer.
Dessa vez números foram trocados e ao se despedirem um beijo na face dele foi dado. Na mesma tarde ela receberia uma mensagem em seu celular, com elogios aos seus olhos e ao seu jeito. Dessa vez foi a excitação que acelerou seu coração e alterou sua respiração. Ela terminou aquela tarde recostada em sua cadeira e com "Crytal" do New Order em seus ouvidos.
Quarta- Feira
Novamente no metrô ele esperava encontrá-la, mas desta vez não viu, ficou realmente triste, tentou ligar várias vezes, mas o telefone acusava desligado. Durante o dia tentou outra vezes sem sucesso. Até que ao final da tarde recebeu a ligação esperada, convidando-o para se encontrarem em um barzinho próximo ao trabalho dela. Ele saiu empolgado e ao invés de usar o metrô decidiu fazer o percurso na caminhada, isso o ajudava a colocar as idéias em ordem e a diminuir seu nervosismo. Chegou ao local do encontro, um bar recentemente inaugurado que ainda estava com pouco movimento e o público era praticamente formados por casais, uns permanentes e outros ocasionais. A música era ao vivo e a banda naquela noite tocava uma seleção de metal melódico, ao entrar ele já a viu em um canto próximo a uma coluna.
Ele foi ao seu encontro e enquanto sentava ela enlaçou os braços em seu pescoço trazendo-o para junto de si e dando-lhe um beijo úmido, mas terno. Ele ficou impressionado com a iniciativa dela, mas não era o tipo de beijo que esperava. Como se percebesse o sutil desapontamento dele, ela disse que aquele era apenas para comemorar a boa entrevista de emprego que teve durante o dia, motivo que explicava o telefone desligado. Após isso passaram algumas horas conversando intimidades e de vez em quando suas mãos se entrelaçavam. Ele se mostrou gentil e cortês o tempo todo, mas ela notava a tensão que aquele encontro lhe causava. Ao se despedirem foi ele que a puxou para si dando-lhe um beijo mais enfático, mas ela percebendo que era um convite o recusou educadamente tornando o beijo mais sutil.
Ele a deixou na porta do metrô, mas para não insinuar que a estava forçando a algo, se despediu e decidiu caminhar um pouco e utilizar outra estação. Seus pensamentos eram turvos, seus sentimentos idem, havia um bom tempo que não se envolvia com ninguém, não sabia se podia enfrentar o que várias vezes se mostrou um fardo. Mas ao passar por um grupo de jovens que escutava música em um carro com as portas abertas, seus pensamentos ficaram um pouco mais claros, o motivo não era a musica em si, "Sweet Dreams" a versão do Marilyn Manson, mas a lembrança de que outra Meire já lhe beijara daquele jeito.
Quinta- Feira
Não houve encontro neste dia, apenas a troca de mensagens, corriqueiras, algo impedia que os dois usassem o telefone para o que foi criado, falar um com o outro, parecia que as letras digitadas no minúsculo teclado eram enviadas com mais inspiração.
Ela terminou o dia com o telefone ao lado da cama, com a última mensagem dele. Enquanto ele começava a escolher um tema para as ligações dela no seu telefone. Ele estava pensando em “Out On My Own” do Gotthard.
Sexta-feira
A música que o despertara era “Horizons” do Pastore, mas não era do rádio-relógio, era a musica que ele finalmente escolhera para identificar as ligações de Meire no seu celular. Atendeu a chamada com aquela voz de besouro que se tem ao acordar, mas ficou impressionado com a voz intimidadora que saia do aparelho, que praticamente lhe ordenava a esperara-la na estação e no horário de sempre. Ele não teve muito tempo pra se arrumar, Só pegou seus documentos, algum dinheiro e um apetrecho especial para ela, que guardou no bolso interno da jaqueta.
Ao chegar a estação, ele não precisou esperar o metrô, ela já estava lá, com um vestido estilo japonês, cabelo preso, os lábios vermelhos e aquelas pernas prometendo muito mais. Sua admiração durou pouco, pois ela praticamente o envolveu num abraço e colando seu corpo esguio no dele, puxou seu rosto para junto de si e deu-lhe um beijo. Sua língua procurando a dele nervosamente, suas unhas praticamente cravadas em seu pescoço era o convite que ele queria receber, e as mãos dele apalpando cada centímetro de suas costas era a resposta que ela precisava.
Não houve paradas, nem sequer a intenção de irem pra outro lugar, o objetivo daquela viajem era o apartamento dela, onde passaram o dia, a tarde e toda a noite realizando suas vontades e inventando outras. Adormeceram ouvindo o vizinho gay dela cantar “ Goodbye Yellow Brick Road”.
Sábado
Na manhã seguinte, ao admirar o corpo nu de Meire, levemente úmido por causa do suor e com seu peito se expandindo suavemente por causa de sua respiração calma, deitada naquela cama, ele teve duas certezas, aquelas pernas realmente ofereciam mais do que do que prometiam e que não havia mais opção, era hora de realizar aquilo que tanto adiara naquela semana. Mas não seria como a outra Meire, ou melhor, como as outras Meires, dessa vez ele seria honesto, gentil, galante até. Seria fiel, tocaria sua pele com delicadeza, afagaria sempre sua face quando dissesse tudo o que faria por ela e com ela. Com essa Meire ele havia percebido que era hora de amadurecer suas intenções, suas idéias, seus métodos.
Com as outras não houve ternura, foi tudo de um modo brusco e direto, suas mãos não sentiam o valor de um toque em uma pele delicada, ele nunca fora totalmente sincero, nunca percebeu que o olhar delas lhe indicava sua amargura, sua pequenez. Quando as deixou, foi simplesmente uma fuga do compromisso que não queria assumir. Mas agora essa Meire seria sua derradeira obra, sua despedida do passado, o inicio de uma nova empreitada. Ele levantou, foi até o banheiro, lavou o rosto, o mesmo que encarou no espelho antes de sair e procurar em sua jaqueta um par de luvas de borracha. Mas desistiu deste acessório, ela merecia que a estrangulasse e tivesse seu pescoço rompido por suas mãos nuas. Lógico que desta vez ele não escaparia, seria julgado e trancafiado em um local escuro, mas não importava, ele poderia agora até morrer, pois havia encontrado a redenção na morte da mulher perfeita, a mulher que carregava o nome de sua mãe, de sua avó e antes delas tantas outras mulheres de sua família.
Ao aproximar-se da cama, ele notara a bolsa dela, e desta a ponta de um envelope de telegrama, a curiosidade não podia atrasá-lo em seu ato, mas ela o venceu e ele o apanhou, o abriu e o leu deixando-o em cima da cama e logo depois vestindo calma e silenciosamente suas roupas e saindo calmamente daquele apartamento, colocou os fones de ouvido, buscou em seu celular “Torn” do Creed e caminhou pela calçada rumo a estação de metrô.
Meire acordou alguns minutos depois procurando pelo seu amante da noite anterior, mas ao apalpar o lado que ele ocupava na cama, encontrou o telegrama que recebeu da empresa onde fez a entrevista naquela semana:
Para Srta. Ana Maria Siqueira
Informamos que a Srta. foi aprovada no nosso processo seletivo.
Pedimos a gentileza de comparecer na Segunda-feira, na sede da nossa empresa, portando os documentos necessários para admissão.
Gostaríamos de salientar que já registramos a preferência que a Srta. tem de que, no crachá, conste apenas o apelido de MEIRE.
Naquela manhã um apelido, que ela adorava, tiraria sua vida, mas foi o nome de batismo, que ela a execrava, que a poupou.
Ele agora procura pela mulher perfeita, a que tenha o aquele nome matriarcal e a beleza de ANA.
Aviso: todas as música citadas estão no youtube.

3 comentários:
Quero continuação!!!!!
Cara, parabéns, muito boa a sua história, surpreendente final, trama envolvente e sem falar da excelente trilha sonora... Assim como a Cintia Lino eu também quero uma continuação...
É o conto foi fantástico, que reviravolta no final......
Como eu gosto das coisas bem explicadinhas eu quero explicação pra entender a loucura do cara...
Aiaiai tava tão linduuuuuuuu
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